Nos históricos dias que estamos vivendo, quando democratas travam uma batalha de “vida ou morte” contra fascistas e entreguistas que abraçaram a causa da intentona golpista, fica mais evidente uma tendência pequeno-burguesa no meio da esquerda, e até mesmo entre os comunistas, que é a atração fatal por acumular inimigos, como aqueles acumuladores de objetos imprestáveis que acabam quase soterrando o colecionador maluco.
E essa atração atinge seu maior grau quanto mais acirrada se torna a luta, quanto mais precisamos de aliados ou de neutralizados.
Por ouvir dizer ou deduzir que alguém apoia o golpe, pronto! Virou um inimigo a ser combatido e “abatido”. Mais um ou mais uma que - assim, assim - , uma vez “desmascarado”, é colocado do lado de lá, do lado dos golpistas.
Se for um dirigente classista, um parlamentar, um governador ou um prefeito, irá merecer até comemoração e longas e gloriosas narrativas de como o cão-tinhoso foi descoberto e deportado para o campo inimigo. Maquiavel, Sun Tzu e Lenin devem estar se revirando no túmulo.
Felizes e faceiros por terem conseguido desmascarar mais um inimigo do povo e da democracia, os acumuladores de inimigos seguem em sua busca incessante por mais e mais soldados adversários, como se fossem poucos os que já temos que combater.
Esse comportamento é altamente prejudicial à nossa luta para alcançar novo salto civilizacional para o Brasil e, o que é pior, beira a uma sabotagem involuntária à luta que travamos em defesa da democracia e contra o golpe.
Não precisamos e não devemos escolher inimigos. Fiquemos tranquilos quanto a isso, pois o campo do adversário está infestado de fascistas e golpistas.
Se almejamos a vitória, devemos, com paciência e cuidado, analisar a situação concreta e a partir daí construir nossas táticas.
Se queremos um movimento verdadeiramente de massas nesse campo de batalha, devemos querer do nosso lado todos aqueles e aquelas que defendem a democracia e o Estado Democrático de Direito, mesmo que sejam nossos adversários em outros campos e momentos, mesmo que sejam conservadores, mesmo que não gostem da presidenta, mesmo que abominem a esquerda, os socialistas e o socialismo.
Mas até em relação àqueles que temos certeza que já aderiram ao golpe, nos cabe usar nossa capacidade dialética, nossa capacidade de convencimento, para tentar fazer com que mudem de opinião ou, pelo menos, fiquem neutros. Remota são as chances, sabemos, mas não podemos deixar de tentar, principalmente quando o alvo detém algum tipo de poder que possa contribuir para resultado adverso, como é o caso daqueles deputados e deputadas que compõem a Comissão do Impeachment e já se declararam favorável ao afastamento da presidenta.
Mais cuidado ainda devemos tomar quanto aos que ainda não temos certeza absoluta de sua posição. Ouvir dizer, deduzir, supor, não devem ser justificativas suficientes para empurramos ninguém para o lado de lá. Ao contrário, devemos dar prioridade a procurar aqueles e aquelas que supostamente ainda se encontram indefinidos, para tentar traze-los para nosso lado, ou até mesmo neutraliza-los.
Por fim, devemos cuidar para não trazer divergências setoriais para o ceio dessa grande batalha que travamos contra o golpe. Não nos esqueçamos de que o desfecho da grande batalha que travamos poderá valer por décadas.
Acumular inimigos pode até satisfazer o esquerdismo que insiste em não abandonar muitos de nós, mas em nada ajudará nossa luta. Pelo contrário, servirá mais aos propósitos da causa dos fascistas e golpistas.