segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Em busca da centelha

Nestes tempos bicudos é recorrente ouvir comentários, curtos ou longos, de como o povo é ignorante, alienado, indulgente, entre outros adjetivos para descrever o comportamento da patuleia frente ao verdadeiro assalto continuado aos direitos conquistados e às riquezas nacionais, praticado pela quadrilha de golpistas que usurpou um governo legitimamente eleito, solapando de roldão a democracia da Constituição e da convivência social.

É compreensível o desespero de muitas e muitos de nós diante da cavalgada impassível desses cavaleiros do apocalipse a destruir conquistas civilizacionais e patrimônios nacionais.
Mas concordando que somos mais ignorantes e menos bem informados que a patuleia de outros países, não vejo que seja essa a explicação de nossa passividade diante da quadrilha que invadiu nossos quintais e ameaça entrar em nossas casas.

Já vimos e veremos fascistas e flertadores do fascismo conquistarem a hegemonia política em países onde os eleitores são muito mais letrados e menos midiotizados do que nós.

Há algo mais ligado ao campo do imaginário coletivo, da psicologia coletiva - sei lá - a nos congelar, a impedir que esbocemos reação diante dessa tragédia e de absurdos que se sucedem a cada dia, envolvendo o núcleo do governo federal, do poder judiciário e do Ministério Público, dominado por golpistas.

Em 2013 São Paulo viveu forte reação de setores da população que reagiram ao aumento de 20 centavos no preço da passagem, e por razões ainda não muito bem compreendidas, aquilo se alastrou pelo pais afora, se tornando um dos maiores movimentos de massa da história do Brasil, que durou por vários dias.

Já não era mais pelos 20 centavos, mas também não passou a ser por bandeiras específicas. Foi uma imensa explosão de energia, de indignação coletiva "contra tudo isso que está aí", mas que não encontrou um eixo que pudesse organizar e direcionar a força daquela explosão, que acabou se dissipando. É bem verdade que no meio daquelas multidões que enchiam as grandes praças e avenidas do país estava o ovo da serpente das manifestações contra Dilma ao longo de 2015 e 2016. Mas essa é uma outra história.

O fato é que nós só conseguiremos sair do torpor que nos aprisiona a contemplar essa quadrilha a saquear nosso futuro, se formos capazes de encontrar a centelha que poderá desencadear uma reação coletiva e reintegrar ao povo a posse de seu governo.


Para isso é preciso que continuemos a lutar com determinação, mas tendo em conta que poderá ser uma luta prolongada, que a vitória poderá demorar anos e que na trajetória dessa luta ainda poderemos perder muito mais do que já perdemos.