terça-feira, 28 de outubro de 2014

O BRASIL NÃO ESTÁ DIVIDIDO, MAS CLAMA POR MUDANÇAS

O clima pós eleições ainda está dominado pela emoção que, sabemos, não é boa conselheira, além de ser forte indutora de atos impulsivos, muitas vezes reprováveis.

Não, o Brasil não está dividido. Essa dicotomia não passa de uma impressão emocional momentânea de parte do eleitorado, ou sonho de consumo de setores irresponsáveis do projeto derrotado, que tentam, desde já, construir um consenso nacional sobre essa falsa divisão, usando, como sempre, grandes veículos de comunicação a serviço de seus objetivos, contribuindo, inclusive, para manifestações xenofóbicas e  preconceituosas como as que temos visto no mundo virtual e real.

Tentar convencer os brasileiros de que o Brasil está dividido após a vitória de Dilma é o caminho mais curto, acreditam, para tentar inviabilizar desde seu início o governo reeleito, encurralando-o nas cordas e ir, aos poucos, minguando suas forças com golpes abaixo da linha de cintura, comprometendo a governabilidade e criando um consenso na opinião pública de que o governo é ruim, inoperante e que foi um erro do eleitor quando permitiu a reeleição da  presidenta Dilma. Junte-se a isso um novo escândalo super  dimensionado - e até deturpado - pelos arautos do golpismo, e estaremos a caminho do impedimento da presidenta via Congresso Nacional, que sai destas eleições o mais conservador dos últimos 12 anos. Esse é o enredo de uma ópera bufa e trágica que entrou em cena logo após o resultado das eleições presidenciais.

Mas o Brasil não está dividido, a não ser no maroto mapa vermelho e azul montado por estes golpistas de plantão. Dividir o país em estados pró Dilma e anti Dilma chega a ser cômico, se não trouxesse consigo a possibilidade de uma tragédia em gestação no útero da direita antidemocrática, incapaz de esperar mais quatro anos para uma nova tentativa de voltar ao Palácio do Planalto pelo voto.

Assim como o eleitorado de São Paulo não votou integralmente em Aécio, o de Pernambuco também não votou integralmente em Dilma. O mesmo aconteceu nas faixas de renda. Os dois candidatos tiveram votos em todas elas, embora mais votados em umas do que em outras. Dilma teve muitos votos nas classes A e B, assim como Aécio foi bem votado, ainda que minoritariamente, nas classes D e E.

Mesmo a divisão numérica, que ficou caracterizada pela  pequena diferença de menos de quatro pontos percentuais a favor de Dilma, não pode sustentar a tese da divisão do país entre petistas e anti petistas. Os números finais do pleito são apenas um retrato, uma manifestação momentânea do desejo de grande parte do eleitorado, que em seguida ao voto não cristalizará sua opção, passando automaticamente a observar, com maior ou menor interesse, os rumos do governo, podendo reverter sua opção a qualquer tempo, embora só venha a manifestá-la nas próximas eleições ou em manifestações populares como as jornadas de junho/julho de 2013. Ou seja, ao longo dos próximos quatro anos, eleitores de Dilma poderão ir para a oposição, assim como esta pode perder eleitores para a situação. Tudo vai depender da capacidade do governo em cumprir os compromissos assumidos e impedir que o fogo de barragem da maior  parte dos veículos de comunicação criem uma cortina de fumaça sobre suas realizações.

Eis a primeira batalha pós-eleitoral. É preciso impedir que setores golpistas dos meios de comunicação e a parcela irresponsável da oposição vençam a disputa pela opinião pública e consigam convencer a maioria dos brasileiros de que o país está dividido entre os prós e os contra Dilma. Perder essa batalha será um péssimo começo. E essa batalha só pode ser vencida se o governo conseguir manter-se na ofensiva, obsessivamente na ofensiva, criando a pauta e não sendo pautado. 

Para conseguir esse intento é preciso, para um bom começo, inverter  a mão no diálogo com a sociedade em relação às mazelas da corrupção, pois ela continuará na pauta, queira o Palácio do Planalto ou não, uma vez que é uma velha e eficaz receita da direita para golpear governos progressistas e populares, como ocorreu com Getúlio Vargas, João Goulart, Lula e Dilma - leiam a coluna de Merval Pereira de hoje (23/10) e verão que não estou fazendo apenas suposições.

Só com uma ofensiva explícita e recuperando a bandeira da ética é que o governo terá condições de evitar os estragos que atos de corrupção são capazes de causar à sua imagem, uma vez que extirpa-los de vez é impossível, é tarefa quase inglória. Em síntese, é preciso evitar que atos de corrupção que venham à luz do dia tornem-se marca do governo, embotando e desbotando realizações exitosas e inclusivas como ocorreu a partir da segunda metade  do governo Dilma, quando a direita e seu braço armado midiático mudou de tática deixando de exultar a implacável luta da presidenta contra a corrupção, como fazia no início de seu mandato. Em 2011 e em parte de 2012,  ao mesmo tempo que a adulava, tentava afastá-la de Lula de forma marota, classificando seu antecessor como um presidente leniente e até conivente com malfeitos. Como não deu certo, partiram para cima de Dilma, tentando sitiá-la e emoldurá-la na imagem da corrupção. Por pouco não tiveram êxito, como vimos nestas eleições.

Mas se a ofensiva no combate à corrupção é uma exigência de primeira hora e fundamental para implodir a casamata que abriga o único canhão oposicionista que ainda pode causar estragos imediatos nesse momento pós-eleitoral, são as grandes reformas estruturais e a radicalização das ações inclusivas que irão garantir um governo exitoso, capaz de coesionar sua base aliada e ampliar o apoio popular, atraindo para o projeto democrático e progressista outros partidos e organizações do movimento popular que, embora de esquerda, mantêm-se  na oposição - ou quase - por entenderem que suas bandeiras não estão contempladas dentro das políticas governamentais.

É certo que houve muitas conquistas nestes 12 anos, após a primeira eleição de Lula. O Brasil se tornou a sétima economia do mundo e implantou diversas políticas de inclusão social e de distribuição e transferência de renda jamais vistos em sua história e que alcançam reconhecimento mundial. Ainda assim, a profunda desigualdade que ainda persiste na sociedade brasileira está a exigir mais mudanças e em ritmo mais acelerado. Sem atender essas necessidades e expectativas, o risco de ocorrer uma frustração coletiva é enorme. É preciso avançar na democratização, incentivando maior participação popular na definição e formatação das políticas públicas, inclusive na sua fiscalização; é  preciso mais desenvolvimento e mais progresso social.

Mas o governo só será capaz de atender essas demandas se ousar propor e lutar pelas grandes reformas ainda por fazer e aprofundar a implantação das políticas inclusivas e democratizantes, como a reforma política com financiamento público de campanha e voto em lista - compromisso já renovado por Dilma; reforma tributária progressiva e  cobrança de impostos de grandes fortunas; reforma agrária; reforma urbana; regulação e democratização dos meios de comunicação conforme previsto da Constituição Federal; ampliar as medidas de proteção ao meio ambiente; ampliar os esforços para universalização dos serviços públicos; propor e lutar pela implantação da jornada de trabalho de 40 horas semanais, sem redução do salário; implantar mecanismo que permita a extinção do fator previdenciário com prazo determinado; acelerar a demarcação e regularização das terras indígenas e quilombolas; aprofundar os  mecanismos de combate às discriminações raciais e de gênero. Tais reformas e políticas é que serão capazes de garantir uma estratégia de desenvolvimento duradouro e acelerado, na direção de conquistas mais amplas para a superação das profundas desigualdades sociais e regionais ainda existentes.

É certo, entretanto, que trilhar esse caminho significa ter disposição para enfrentar acirrada resistência das forças conservadoras, que tudo farão para impedir que a sociedade brasileira avance nessa direção. E o arsenal de que o adversário dispões é de grande contundência. Entre outras instituições eles têm ao seu lado os principais meios de comunicação e o congresso nacional, que é majoritariamente conservador, ainda que numericamente governista. Está claro, portanto, que sem um forte apoio e mobilização do campo popular e de esquerda, torna-se quase impossível sair da fase homeopática das mudanças. 

A construção desse campo é fundamental e deve  unir, tanto quanto possível, todas as forças políticas que tenham identidade com as mudanças e avanços defendidos e requeridos pelos setores populares, progressistas e de esquerda, sejam eles partidos políticos, movimentos sociais, centrais sindicais, e outros segmentos que enxerguem esse caminho como aquele que levará à modernização do Estado nacional e ao fortalecimento de nossa soberania com a eliminação das grandes desigualdades sociais que ainda perduram. Nessa direção, é importantíssimo que o governo tente atrair de volta o PSB, que busque atrair o PSOL e outros partidos de esquerda, mesmo que estes ainda não tenham representação no congresso nacional. É possível e necessário também conquistar  o apoio  de outras centrais sindicais - além da CUT e da CTB - e de movimentos populares importantes e portadores de grandes e legítimas demandas sociais. Sem essa mobilização, as amarras institucionais e a capacidade de resistências das forças conservadoras impedirão os avanços requeridos pela sociedade, mas a fatura será cobrada do governo e não daqueles que obstruíram o caminho das mudanças.

sábado, 30 de agosto de 2014

Esquerda, volver!

Esquerda, volver!!!

O caminho da vitória para Dilma é avançar para a esquerda.

O PT sempre temeu enfrentar os grandes grupos conservadores da Mídia, os banqueiros e o empresariado de direita, tentando se equilibrar entre o compromisso com políticas sociais e de inclusão e o não enfrentamento de mazelas históricas como o monopólio dos meios de comunicação, a especulação financeira e o boicote de setores econômicos às políticas governamentais. 

Esse caminho não é mais possível. Seguir mostrando o que fez e o que fará nos limites desse marco não nos levará á quarta vitória do povo. Sucumbiremos à onda do Collor de saias.

Dilma tem que se comprometer aberta e incisivamente com bandeiras tais como a redução da jornada de trabalho; taxação das grandes fortunas; democratização da mídia, conforme prevê a constituição; fim do fator previdenciário; reforma agrária radical em cima de grandes propriedades especulativas e improdutivas, acompanhada de um forte programa de investimentos e custeio para os novos e antigos assentamentos; reforma urbana; aprofundamento dos mecanismo de fortalecimento da democracia direta; denúncia e combate ao rentismo e, por aí vai;

Deve também desmascarar o discurso de Marina e coloca-la onde ela realmente está, ou seja, ao lado dos banqueiros e do grande empresariado a serviço do imperialismo mundial.

Só essa inflexão à esquerda é que será capaz de mostrar de que lado a candidata petista e as forças que a apoiam estão, mesmo que desagrade segmentos conservadores aderidos ao projeto de reeleição. Assim, as chances de vitória irão aumentar.

Mas se ficar só no “feijão com arroz” de mostrar o que fez e vai fazer sem ultrapassar a barreira conservadora que cercou seu governo e os governos Lula, a campanha ficará mais com cara de relatório de prestação de contas e o projeto liderado pelo PT não será mais capaz de ser o caudatário dos anseios por mudanças clamadas pela maioria do povo brasileiro.

Por outro lado, mesmo que Dilma seja derrotada, essa guinada à esquerda servirá para agrupar e reorganizar as forças políticas mais avançadas, os movimentos sociais, sindicais e setores progressistas da sociedade para enfrentar o neoliberalismo que, caso Marina saia vitoriosa, ressurgirá com nova roupagem, na pele de uma candidata messiânica, que prega uma nova política, mas que na verdade traz camuflados por debaixo dessa roupagem, banqueiros, e outros empresários antinacionais, ávidos por lucros ilimitados, às custas da espoliação dos trabalhadores e da maioria do povo brasileiro.


No entanto, se Dilma e seus estrategistas esperam poder vencer com o apoio da direita que supostamente tem temor a Marina, poderá dar com os burros n'água, simplesmente por que esse temor não existe e mesmo que alguns a temam, esse medo é menor do que a verdadeira ojeriza ao PT, que nesse meio e em sua área de influência chegou a níveis psicóticos. Se ainda assim Dilma ganhar com o improvável apoio da direita, terá que realizar um governo mais conservador, sem ter condições de avançar nas mudanças tão necessárias para o aprofundamento da democracia e para o bem estar do brasileiro. O fracasso do projeto estará sendo apenas adiado.

Mas se perder abraçada com a direita, será ainda pior, pois o Partido dos Trabalhadores não terá mais legitimidade para liderar as forças de esquerda e progressistas no combate ao neoliberalismo que se imporá novamente com a eleição da outra candidata.

Ganhando ou perdendo, é preciso que seja com as bandeiras da classe trabalhadora e da maioria do povo brasileiro.

E, para trazer mais complexidade ao quadro atual, não podemos esquecer o resultado dessa eleição não terá reflexos apenas para o Brasil. Todos os governos e movimentos de esquerda e progressistas da América Latina serão impactados pelo resultado que sairá das urnas em outubro ou novembro. Isso torna ainda mais fundamental alcançar a quarta vitória do projeto cuja implantação se iniciou em 2003, com o primeiro governo Lula.

Até a vitória, sempre!!!!

terça-feira, 25 de março de 2014

Dois pesos e duas medidas: o verdadeiro partido de oposição

Os meios de comunicação, sejam eles concedidos - como é o caso das TVs abertas e rádios - ou não, devem operar sob o manto da mais ampla liberdade de expressão. É condição que não pode ser relativizada ou condicionada. As informações, opiniões, valores e conceitos - dentro do arcabouço legal - devem fluir sem qualquer restrição, mesmo nos casos em que refletem apenas a opinião de um setor da sociedade, mesmo que minoritário, mesmo que anacrônico. É um direito inalienável inscrito na nossa Carta Magna. Mas é também quase uma utopia, pois o que predomina  na maioria dos meios de comunicação brasileiros é uma única narrativa imposta pelo monopólio do setor, hegemonizado por 7 famílias que substituem o dever de informar e o direito de opinar por uma pauta pseudo jornalística que se destina exclusivamente a atender seus interesses econômicos e políticos, mesmo que para isso seja preciso manipular, distorcer, fazer edição tendenciosa e, até mesmo, mentir.  impõem estes interesses sobre suas redes de TVs, de rádios, jornais impressos e revistas, mesmo que a curto prazo possa significar perda de audiência ou de leitores, mas que a longo prazo possa contribuir para a manutenção da hegemonia histórica da elite brasileira sobre os principais espaços de poder no País e, a médio prazo, permita a retomada de algum espaço perdido para setores majoritário da sociedade, principalmente a presidência da república.

Basta, por curiosidade, perdermos algum tempo e prestarmos atenção nas notícias e opiniões veiculadas por telejornais, jornais de rádio, revistas e jornais impressos. Iremos constatar que não faz a mínima diferenças se assistimos um jornal da tv tal ou qual; se ouvimos o jornal daquela ou esta rádio; se lemos um ou outro jornal ou revista. As únicas diferenças que notaremos serão aquelas relacionadas a estilo e a qualidade técnica. Raríssimas vezes encontraremos um contra  ponto, uma outra narrativa.

Podemos também perceber o quão mais seletivos e contundentes os grandes grupos de mídia se tornam a cada vez que se aproxima a eleição para presidente da república e para o congresso nacional. Mais parecem órgãos oficiais de comunicação dos partidos adversários do atual governo federal, na tentativa de contribuir para a viabilização de uma das candidaturas de oposição. Para isso são capazes de praticar as mais vergonhosas páginas da história do jornalismo brasileiro. Omitem ou amortecem informações que possam atingir seus preferidos e superdimensionam notícias que possam causar danos ao PT e seus aliados unidos em torno da reeleição de Dilma Roussef. Isso fica evidente se compararmos o comportamento da maior parte da mídia nacional e regional em relação a dois fatos de recente repercussão.

O primeiro deles é suspeita de desvios praticados pelo PSDB ao longo de mais de 15 anos em negócios e negociatas envolvendo o Metrô de São Paulo - batizado de "trensalão tucano" -, bilionário esquema de propinas supostamente pagas por multinacionais do setor de energia e transporte e governos do PSDB em São Paulo. A acusação indica que os envolvidos teriam recebido da multinacional Alston propinas de R$ 40,3 milhões, que somados às denúncias e confissões da Siemens, podem ultrapassar a casa dos 570 milhões. Há inquéritos, pessoas indiciadas, suspeitas que se aproximam do falecido ex-governador Mario Covas; do também ex-governador e ex-candidato a presidência da república, José Serra e do atual governador Geraldo Alckmin.

Tamanha é a avalanche de denúncias e o volume de dinheiro que pode ter sido surrupiado dos cofres públicos, que não houve como subtrair do noticiário esse assunto. Mas as matérias relacionadas ao caso foram, invariavelmente, veiculadas em volume muito aquém da gravidade das denúncias e com um texto  que quase sempre visava evitar a exposição dos principais líderes do PSDB.

O mesmo comportamento não vemos em relação às acusações que atingem a Petrobrás nestes dias, sobre irregularidades que teriam ocorrido quando Lula era presidente e Dilma ministra das minas e energia e presidenta do conselho daquela estatal. Tais denúncias são relacionadas à aquisição da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.

Esse assunto virou "cabeça de pauta" em praticamente todos os grandes meios de comunicação, mas não com o objetivo de fazer o bom jornalismo e prestar esclarecimentos à sociedade acerca das acusações - que devem ser apuradas, claro -, mas sim o de criar uma crise política para tentar atingir o coração do governo e seu principal cabo eleitoral, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva - sobre a aquisição de Pasadena, é oportuno buscar-se outras narrativas e  dentre elas sugiro a leitura das matérias sobre o tema no blog "O Cafezinho", como a que foi veiculada ontem sob o título " Exclusivo! Documentos comprovam que Astra pagou mais por Pasadena!"

A manipulação é tamanha, que a entrevista concedida pelo ex-presidente da Petrobrás, Sergio Gabrielli, foi ao ar  mutilada por uma edição direcionada para criar a impressão que Gabrielli se voltava contra Dilma. Quem puder assistir a íntegra da entrevista e compara-la com a edição da Globo irá perceber a torpe tentativa.

Esse é o comportamento histórico da maioria dos meios de comunicação no Brasil. Meios monopolizados e que representam os interesses das elites dominantes que desde sempre se apropriaram das instituições brasileiras e delas se beneficiam para manter as bases do sistema de dominação e acumulação de riquezas sob o controle de restrito círculo social, impondo à maioria da população o usufruto do que sobrar dessa sanha acumulativa.

Mas esse papel exercido pela mídia brasileira não é exclusividade nossa. Assim acontece pelo mundo afora, agora e sempre. A equação que define a relação entre poder e informação é milenar. Assim escreveu Gramsci em "Os Jornais e os operários", conforme artigo publicado no blog da Boitempo por Dênis Moraes, Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade federal do Rio de Janeiro: "Tudo o que se publica (na imprensa burguesa) é constantemente influenciado por uma ideia: servir à classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. (...) E não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa, ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público trabalhador".

Mas esse papel de porta voz da classe dominante exercido pelos meios de comunicação no Brasil é potencializado pelo monopólio do setor. São sete famílias que dominam todos os grandes veículos, mantendo uma situação que contrapõe o que determina a Constituição Federal, que proíbe o monopólio, em especial o monopólio cruzado, ou seja, aquele em que um único dono detém o controle de diversos tipos de meios, impedindo o contraditório, o contraponto, outra narrativa.

Com base nessa breve dissertação, é possível afirmar que o verdadeiro partido de oposição é o monopólio midiático, que cumpre o papel que caberia a partidos que se opõem ao projeto que hegemonizou a preferência do eleitorado brasileiro a partir de 2003.

Como escreveu Dênis de Moraes, em seu artigo citado acima, "Os meios de comunicação procuram intervir nos planos ideológico-cultural e político com o intuito de disseminar informações e ideias que concorrem para a formação e a sedimentação do consenso em torno de determinadas concepções de mundo. A maioria deles funciona como alicerces para a conservação da hegemonia do que José Paulo Netto bem definiu como 'a ordem social comandada pelo capital' em 'O leitor de Marx' (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012, p. 7.)".

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A senhorinha e o "coxão" falastrão

Hoje de manhã fui ao supermercado fazer umas comprinhas e acabei tendo que intervir para evitar um ato de injustiça.

Estava sendo atendido no balcão do açougue, quando estaciona ao meu lado um sujeito que aparentava ter mais de 60 anos. De aparência simpática  e bonachona, impressão inicial desfeita rapidamente, quando ele fez o seguinte comentário:

- Ué, Lula faliu?

Não entendi, mas fiquei curioso. Minha curiosidade não durou muito, pois logo em seguida o ex-simpático emendou:

- Só pode ter falido, pois não estou vendo nenhuma carne do Friboi por aqui!

E se virando para mim, emendou:

- Você sabe que o Lula é o dono do Friboi, né?

Embora já estivesse a fim de partir pra cima do provocador, achei melhor não iniciar um debate àquela hora da manhã, ainda mais sabendo que o nível da conversa alcançaria o rés do chão, tamanha eram as bobagens que o tal sujeito falava. Fiz de conta que não ouvi a abordagem, embora ele estivessem ao meu lado direito, onde fica meu ouvido bom.

 Ele seguiu com provocações direcionadas aleatoriamente, de certo esperando que alguém se somasse ao seu esforço para atacar Lula e Dilma e, quem sabe, talvez desejando que algum petista ou governista, como eu, mordesse a isca e partisse  para o confronto (de ideias, é claro).

Logo se posicionou ao meu lado esquerdo uma senhora beirando seus 70 anos, com a senha na mão, aguardando chegar sua vez.

Junto ao provocador também se encostaram mais uns dois caras que aparentavam a mesma faixa etária, aguardando pelo atendimento e que logo vieram somar forças com o sessentão parlapatão.

Para entenderem melhor esta narrativa, preciso explicar que o açougue do supermercado onde se passou o fato, faz atendimento diferenciado para a terceira idade, distribuindo dois tipos de senha. Eu, como ainda não cheguei lá, embora esteja margeando, peguei a senha de número 343. Quando terminei de  ser atendido, o açougueiro apertou o botão da senha seguinte, 344, e após poucos segundos, como ninguém se manifestou, chamou a senha seguinte, a de número 345. Foi quando  a senhorinha que estava ao meu lado despertou de sua pequena abstração e falou:

- É a minha vez,  meu número é o 344.

Por desconhecimento ou distração, ela havia retirado a senha comum e não a da terceira idade. Mas isso não lhe retirava o direito de ser atendida logo depois de mim, que usei a senha 343.

O tal provocador cometeu o mesmo engano da anciã e, adivinhem, era o portador da senha 345. Ouvi, sem nenhuma surpresa, o crápula esbravejar para o açougueiro que já iria começar a atender a senhorinha:

- Espera aí, é a minha vez, se ela não viu quando foi chamada, não é problema meu!

A senhorinha, coitada, se intimidou e ficou sem reação.

Aquilo me indignou, minha paciência com o "coxão" minguou e tive que intervir.

- Espera aí, o senhor! a senha desta senhora é a de número 344 e a sua 345, a vez dela  tem que ser respeitada.

Mas o cara de pau não se deu por vencido e ainda tentou consumar a injustiça que estava tentando praticar:

- A vez é minha, além dela ter cochilado eu sou da terceira idade!

Aí o caldo entornou.

- Como assim? Se o senhor é da terceira idade, esta senhora poderia ser da quarta, pois é óbvio que é bem mais idosa do que o senhor. Digo que o açougueiro vai atende-la e se o senhor insistir, vamos chamar o gerente, pois não vou permitir que esta injustiça seja praticada.

O açougueiro, que até então estava sem saber o que fazer, se sentiu seguro e comunicou que iria atender primeiro a senhorinha.

Mas minha maior surpresa ainda estava por vir. Pude presenciar o desfecho, pois estava bem próximo, no balcão de frios, atento ao desenrolar da situação no açougue, pronto para intervir novamente em defesa da mulher, se fosse preciso.

Enquanto a anciã era atendida, os "coxões" continuaram a meter o pau no Lula e na Dilma, agora mais ensandecidos ainda, talvez já percebendo que eu era apoiador do atual governo.

Foi quando, após ser atendida, a senhorinha disparou pra cima dos "coxões", a queima roupa:

- seus mal educados e mentirosos, podem falar o que quiserem, mas Dilma vai ganhar novamente, seus ingratos!

Mais não disse, saiu de cabeça erguida e ao passar por mim deu uma piscadela cúmplice, que tudo disse, sem nada termos dito diretamente um ao outro. E tive a certeza de que ela sabia que estávamos do mesmo lado, mesmo sem que eu, ao longo de todo o episódio, tivesse feito qualquer comentário em relação aos ataques dos "coxões" ao governo Dilma e ao Lula.

Meu sábado começou muito  bem.





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A quem interessa uma lei antiterror no Brasil?

Não, não há com justificar o ato que causou a morte de Santiago, cinegrafista da rede Bandeirantes. 

Podemos buscar explicações, contextualizações, dizer que violência gera violência, que a polícia é violenta por formação e usa de força excessiva durante as manifestações, que os Black Bloc cobrem o rosto por medo de represália das forças de segurança na calada da noite e nos confins da periferia, etc, etc, mas tentar justificar o ato que levou à morte um trabalhador que estava apenas cumprindo sua obrigação, não vale nem tentar.

Muito menos dá para aceitar essa maluquice de aprovar um "lei anti terror" no Congresso Nacional. Mais inaceitável e surpreendente é ver parlamentares do PT apoiando essa ideia, que nada mais é do que uma tentativa de criar um arcabouço legal que objetiva única e exclusivamente inibir as manifestações populares, a legítima mobilização popular, que só ela será capaz de forçar as mudanças que o Brasil tanto precisa, dentre elas a Reforma Política (com financiamento público de campanhas eleitorais); a democratização dos meios de comunicação com proibição de monopólios e outras exigências constitucionais inscritas nos artigos 5º. 21º. 220º, 221º, 222º e 223º da nossa Carta Magna e a reforma tributária com cobrança progressiva de impostos e tributação das grandes fortunas, conforme determina o artigo 153, inciso VII da Constituição Federal, mas que precisa de uma Lei Complementar, que nunca foi apreciada no Congresso, embora exista Projeto de Lei mofando por lá.

Ah! mas se vamos falar de terror, temos que começar falando do terror que é causado pelas nossas polícias. Me refiro às instituições de segurança, não aos indivíduos que as compõem, como um todo (sou pai de três filhos que fazem parte de instituição militar, da polícia civil e judiciária estadual). Sim por que em nossas instituições policiais ainda predomina a doutrina da segurança nacional da época da ditadura, que tinha o povo como seu maior inimigo, o chamado "inimigo interno".

São estes "inimigos" que as elites conservadoras querem calar e para isso se utilizam de todos os meios e dissimulações possíveis, como agora, com a trágica morte de Santiago, quando - menos consternados e mais oportunistas - tentam criar comoção nacional contra as legítimas mobilizações populares, tentando calar a voz do povo, o poder popular, o único capaz de fazer o Brasil avançar e se transformar em uma Nação próspera, desenvolvida, livre, amante da paz entre os povos e verdadeiramente democrática, na qual o povo não se sinta apenas representado, mas que seja ele o verdadeiro protagonista de seu destino.

Mas isso as elites não querem, nunca quiseram e vão às últimas consequências para evitar estes avanços, pois tal situação comprometeria seus seculares privilégios, o monopólio das riquezas nacionais e das instituições brasileiras. E este temor é tão alucinante que é capaz de levar um jornal a emitir opinião como esta do link. Leiam e vejam se não parece algo vindo do alvorecer da década de 60 do século passado?
http://oglobo.globo.com/opiniao/os-inimigos-da-democracia-11575241