quarta-feira, 1 de abril de 2015

Veríssimo: o fenômeno do ‘espírito golpista dos ricos contra os pobres’

De Veríssimo, no globo:

Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres. O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar. Economistas liberais recomeçaram a pregar abertura comercial absoluta e a dizer que os empresários brasileiros são incompetentes e superprotegidos, quando a verdade é que têm uma desvantagem competitiva enorme. O país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores e setores da baixa classe média, contra os rentistas, o setor financeiro e interesses estrangeiros. Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo. É ódio. Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou. Continuou defendendo os pobres contra os ricos. O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas. Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita. Dilma chamou o Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem o poder. A divisão que ocorreu nos dois últimos anos foi violenta. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho. E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.

Nada do que está escrito no parágrafo anterior foi dito por um petista renitente ou por um radical de esquerda. São trechos de uma entrevista dada à “Folha de São Paulo” pelo economista Luiz Carlos Bresser Pereira, que, a não ser que tenha levado uma vida secreta todos estes anos, não é exatamente um carbonário. Para quem não se lembra, Bresser Pereira foi ministro do Sarney e do Fernando Henrique. A entrevista à “Folha” foi dada por ocasião do lançamento do seu novo livro “A construção politica do Brasil” e suas opiniões, mesmo partindo de um tucano, não chegam a surpreender: ele foi sempre um desenvolvimentista nacionalista neokeynesiano. Mas confesso que até eu, que, como o Antônio Prata, sou meio intelectual, meio de esquerda, me senti, lendo o que ele disse sobre a luta de classes mal abafada que se trava no Brasil e o ódio ao PT que impele o golpismo, um pouco como se visse meu avô dançando seminu no meio do salão — um misto de choque (“Olha o velhinho!”) e de terna admiração. Às vezes, as melhores definições de onde nós estamos e do que está nos acontecendo vem de onde menos se espera.

Outro trecho da entrevista: “Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de desenvolvimento crítica do imperialismo, crítica do processo de entrega de boa parte do nosso excedente a estrangeiros. Tudo vai para o consumo. É o paraíso da não nação.”


domingo, 29 de março de 2015

Corrupção. Vamos lavar a jato, mas vamos lavar a frota toda.

Sim, não há cidadão ou cidadã de bem  que não queira um combate rigoroso à corrupção e que os corruptos e corruptores sejam punidos. Mas muitos que clamam contra esse mal endêmico da humanidade, muitas vezes são levados a crer que a corrupção nunca foi tão presente e tão grande como agora, durante os governos Lula e Dilma, e acabam por culpá-los e ao PT, maior  partido da coalizão governista, por essa "avalanche" de casos que estão  sendo descobertos e investigados.

Mas serem "levados a crer" nessa falsa realidade está longe de ser uma conseqüência natural por conta da divulgação dos casos descobertos de 2003 em diante. É muito mais por uma estratégia da oposição, aplicada com zelo e requinte pelos tradicionais meios de comunicação que se expressam não como órgãos informativos, mas como verdadeiros porta vozes da oposição partidária e não partidária. Quando digo "não partidária", refiro-me aos setores conservadores e fascistas da sociedade, que nem sempre se alinham a algum partido de oposição, mas querem apenas a derrota do projeto democrático e popular iniciado em 2003, com a primeira vitória de Lula, sem se importar se a derrota será no campo democrático ou por intermédio de ato de exceção.

E esse alinhamento quase que unânime e automático dos principais meios de comunicação aos partidos que se opõem a um governo democrático e  popular não seria um ponto fora da curva da realidade história nacional e mundial, não fosse o fato de que, aqui no Brasil, incluem-se nesse exército midiático de oposição as principais redes de tv e rádio, que como sabemos, são concessões públicas e como tal deveriam estar submetidas a mecanismos de regulação que pudessem garantir a ampla liberdade de expressão e de informação, impedindo as práticas  anti democráticas de nos impor uma única narrativa e, muitas vezes, a adoção de distorções de fatos, sempre com um único objetivo: o de açoitar e fragilizar os governos eleitos a partir de 2003.

Então, o que vemos, lemos e ouvimos todos os dias? Um verdadeiro massacre midiático, capitaneado pela maioria das redes de tv nacionais e suas afiliadas locais, despejando em seus jornais as mesmas cantilenas sobre a corrupção, em especial sobre a operação lava jato, sempre com a mesma narrativa, sempre com a mesma linha indutiva de tentar fazer seus telespectadores, radiouvintes e leitores acreditarem que a corrupção nunca foi tão grande como agora e que o PT é o partido mais corrupto de todos.

Ora! Sabemos que a corrupção é um mal que percorre o planeta de norte a sul, de leste a oeste, ao longo dos tempos. A historiografia comprova a existência desse mal na Grécia Antiga, no Império Romano e em outras civilizações do mundo antigo, permanecendo através da história do homem, inclusive e naturalmente, para "surpresa" de hipócritas e mal intencionados, nos governos de Lula e Dilma.

A diferença, grande diferença, é que agora foram criados mecanismos de combate a esse mal, que longe de ser eliminado, é certo que ocorre em menor grau, embora  pareça que sua incidência seja maior. E essa aparência é um efeito natural de mais investigação e mais controle, com a criação da Controladoria Geral da União em 2003; a homologação da Lei  de Acesso à Informação em 2011; da Lei de Lavagem de Dinheiro em 2012; da Lei Anti Corrupção em 2013 e da Lei das Organizações Criminosas, também em 2013. Já em governos anteriores, notadamente nos dois governos de FHC, além da inexistência destes mecanismos, o Procurador Geral da República engavetava toda denúncia que chegava à PGR contra o governo e a PF era maneteada, o que dava a impressão de que não havia corrupção ou que ela ocorria com menor  intensidade.

Sabemos que a realidade era outra, e casos notórios estão aí para não nos deixar mentir, como a privataria tucana, o mensalão tucano, a pasta rosa, o Sivan, a lista de Furnas, o  trensalão, a sanguessuga, o caso das ambulâncias e outros, que foram empurrados para debaixo do  tapete, mas que começam a se esparramar pela sala, tantos que são.

Sim, queremos um combate cada vez mais duro contra a corrupção e que os envolvidos sejam punidos. Mas vamos fazer o dever de casa completo e passar a limpo todos os casos conhecidos e que estão dormitando, esquecidos e empoeirados em alguma gaveta do MPF ou do poder judiciário.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Uma única narrativa: aquela que interessa à oposição e a um de seus principais partidos


Só a canalhice explica a abordagem ao problema da falta d'água, como fez o Mau dia Brazil (nesse caso é com "Z" mesmo) na edição de hoje.

Se aproveitando da declaração de cientistas que afirmam, em uníssono, já terem alertado sobre o problema da falta d'água desde 2013, esse jornal (?) matinal generaliza e joga a responsabilidade no colo do governo federal. Ora! Nós e a mesa de granito sobre a qual escrevo esse comentário, sabemos que a responsabilidade pelo abastecimento d'água é dos governos estaduais.

Isso é o que podemos chamar de tremenda forçação de barra de um jornal que faz tudo, menos jornalismo. Aliás, o que faz mesmo é papel de  órgão oficial de determinado partido de oposição que representa os interesses de grandes capitalistas brasileiros (?) antinacionais.

Tal partido governa um estado que sofre com a falta d'Água desde 2013, embora, alertas técnicos sobre a necessidade de medidas urgentes já tenham sido orientadas a partir de 2003.

Nada foi feito e a tragédia que se abate sobre a população daquele grande estado só se agrava. Ainda assim, esse mesmo jornal, outros jornais do mesmo grupo de mídia e seus sócios do PIG evitaram falar do problema que flagela essa grande unidade da federação, como o diabo evita a cruz. Não podiam, afinal, contrariar os interesses do partido que representam.

Agora, que a crise  hídrica afeta outros estados da federação (ainda que com muito menos intensidade), o Mau dia Brazil generaliza a crítica, como forma de diluir a responsabilidade dos governantes daquele grande estado e, o que é pior, tenta jogar o bode na sala do governo federal.

Mas, enquanto o vergonhoso monopólio dos meios de comunicação não for rompido, não podemos esperar comportamento diferente da  mídia tradicional, que tenta nos impor uma única narrativa, em nome de seus interesses e do principal partido que os defende.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A corrupção já foi muito maior

A oposição e grandes veículos de comunicação surfam as  ondas das denúncias de corrupção, na tentativa de ganhar o campeonato nacional de opinião pública, distorcendo, partidarizando e até  mentido sobre  aquilo que vendem como notícia, como informação, buscando desqualificar o governo recém reeleito e sua base aliada. Fazem isso imaginando um povo imbecil, mal informado, incapaz de fazer seu próprio julgamento. Um povo que gostariam de manobrar, de capturar com sua narrativa sórdida, para legitimar seus preceitos, seu receituário econômico gerador de arrocho salarial, de desemprego, de mais desigualdade social. Um povo que gostariam de ter ao seu lado, em seu desejo mal disfarçado de privatizar a Petrobrás, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e outras estatais que construímos com tanto trabalho e  orgulho. Tentam rimar corrupção com estatal, com o governo, com Dilma, com o PT, com o PCdoB, com a base aliada, como se esse mal que viceja na direção de todos os pontos cardeais, nos dois hemisférios, fosse uma invenção de agora,  inaugurada por Lula e Dilma e que ocorresse exclusivamente no setor público.

Ora - com a devida licença de Mino Carta -, até  o prédio inacabado e  abandonado que vejo de minha janela, sabe que isso não é verdade! Não, não é verdade que desvios gigantescos de dinheiro público começaram agora; também não é verdade  que a corrupção no setor público se avolumou a  partir de 2003 e, mas mais do que isso, a corrupção também está  presente no setor  privado de forma sistêmica.

Quem está  acompanhando o desenrolar do caso Petrobrás e quer se informar melhor, recomendo a leitura do texto escrito pelo tucano e empresário Ricardo Semler, publicado na Folha de São Paulo, sob o título: Nunca se roubou tão pouco. Nele, o empresário corajosamente fala que "nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobrás  nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito". Mais adiante Semler diz que "os percentuais (de propina), caíram. Foi só isso que mudou". E continuando seu corajoso texto, quase um desabafo, ele escreve que "a coisa não para na Petrobrás. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas". Essa afirmação me faz lembrar da famosa e famigerada lista de  Furnas (denunciada como fraude, mas atestada como autêntica); do cartel dos trens de São Paulo e muitos outros escândalos de corrupção graúda que supostamente envolvem tucanos, mas que a vergonhosa cobertura seletiva de alguns dos grandes meios de comunicação preferem omitir, quando muito dar uma notinha de rodapé em uma pagina esquecida de um veículo impresso, ou  mencionar timidamente em um jornal de rádio ou TV.

Ricardo Semler também afirma no texto que "o que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais, sem antes dar propina para o diretor de compras". Fosse alguém com algum vínculo com o atual governo ou com sua base aliada, tais ditos seriam prontamente desqualificados, execrados, mesmo. Mas o autor do texto é filiado ao PSDB e teve sua ficha abonada por Franco Montoro, Mario Covas, José Serra e FHC. Não é pouca  coisa. Tem autoridade e idoneidade para escrever  o que  escreveu.

E arremato dizendo que combinar licitações como fizeram, de acordo com as acusações, grandes empreiteiras na Petrobrás, não deve ser nenhuma novidade e  não deve ocorrer apenas em estatais federais. Tudo indica que essa é uma prática que permeia por todo o setor público, na administração direta e  indireta de todos os níveis da federação. Se passar o pente  fino, muito provavelmente descobriremos que licitações municipais e estaduais  também são administradas de fora pelos carteis locais, regionais e até nacionais, dependendo do tamanho do negócio.

E, para além disso, desconfio, por exemplo, que o valor do metro quadrado dos apartamentos  novos poderia ser mais barato, se houvesse maior controle sobre o setor  comercial das construtoras.

Até as organizações Globo, às voltas com a diminuição de sua audiência e perda de eleitores, deveria dar mais atenção ao seu setor comercial, suponho.