O jornal “A Gazeta” é o principal jornal de meu estado, o
Espírito Santo, embora perca em vendas para “A Tribuna”, seu concorrente direto.
Estão para o Espírito Santo, como os jornalões “O Globo”, “O
Estado de São Paulo” e a “Folha de São Paulo” estão para o Brasil, ou seja, são,
ao fim e ao cabo, porta-vozes dos grandes grupos econômicos locais e nacionais,
e das forças políticas que os representam.
A mais tradicional coluna política de “A Gazeta” chama-se Praça
Oito, que já teve mais influência, mais glamour, já foi mais “fonte” das
novidades do mundo político, mas hoje, com os fatos e boatos circulando online,
já não desperta mais tanto interesse.
Mesmo assim é uma coluna respeitada e, de certa forma, ainda
tem um certo peso na formação da opinião dos leitores do jornal, o que deveria
contribuir para maior esmero com as opiniões ali emitidas, mas que,
infelizmente, não é o que acontece.
A edição de hoje (05/02) abre uma série de textos que irão tentar
convencer o leitor que Lula e Bolsonaro têm muito mais semelhanças do que
antagonismos. E começa por dizer que a principal semelhança entre os dois é que
ambos repudiam o papel da imprensa, “um dos mais importantes pilares de
qualquer nação que se pretende democrática”.
O colunista, indo na onda dos apelidos, inicia essa inacreditável
e absurda abordagem com o título “Bolsolula: opostos, mas nem tanto”.
Destaca o titular da coluna que o “desapego de Lula pelo
trabalho da imprensa e o ‘germe autoritário’ incubado em seu discurso político
serão abordados na sequência das colunas.”
Vamos aguardar para ler e comentar, é claro, mas, a depender
do que foi publicado hoje, pois pelo que já é afirmado na coluna Praça Oito de
hoje, afirmando semelhanças entre Lula e Bolsonaro, inclusive quanto ao suposto
viés autoritário de Lula, expresso, como diz a coluna, no seu repúdio ao
trabalho da imprensa.
São afirmações tão estapafúrdias, fruto de uma leitura
distorcida da realidade ou, pior, propositadamente construída com o intuito de
influenciar o leitor de que é isso mesmo.
Que Bolsonaro é adepto do autoritarismo, não é necessário
nenhum exercício analítico para se chegar a essa conclusão. Seu autoritarismo é
autodeclarado e vem embutido com tudo que há de pior na humanidade, como
homofobia, racismo, machismo, misoginia..., ou seja, fascismo na veia.
Também está muito claro que Bolsonaro não é o candidato dos sonhos
das oligarquias nacionais e seus porta-vozes tradicionais, eles mesmos membros
dessa oligarquia, como os grandes grupos de mídias com seus decadentes jornais
impressos.
Já sabemos o mais que virá nas próximas colunas, num árduo e
ingrato exercício de redação na tentativa de sustentar a tese de que Lula é
autoritário e, por isso, tem “desapego pelo trabalho da imprensa”.
Mas a que trabalho da imprensa o colunista se refere? A qual
imprensa o colunista se refere? Não pode ser outro senão aquele trabalho e
aquela imprensa refletida pelo que afirmou em 2010, no auge do segundo governo
Lula, Maria Judith Brito, então presidente da Associação Nacional de Jornais
(ANJ) e executiva do grupo Folha de S. Paulo. Disse ela: A liberdade de
imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o
contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação e,
obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição
oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E
esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda
sobremaneira o governo.
Então, atentem bem, quando o colunista de Praça Oito fala
que Lula tem desapego pelo trabalho da imprensa, repudia o trabalho da imprensa,
o ex-presidente deixa transparecer esse sentimento, faz esse juízo de valor da
imprensa preconizada por de Maria Judith Brito.
Lula jamais repudiou ou repudia o jornalismo que busca a
verdade, a informação legítima, para depois reportar com a maior fidelidade
possível. Não há como fazer esse bom jornalismo se os grandes meios de
comunicação nacionais e regionais, como A Gazeta, se orientam pela régua de
Judith.
Mas vamos aguardar as próximas colunas de Praça Oito, para
ver o malabarismo analítico que o titular da coluna fará para dar sustentação
às supostas semelhanças entre Bolsonaro e Lula, e o enaltecimento do papel dos
grandes grupos de mídia nacionais em defesa da democracia. Ei, Getúlio, ei JK,
ei Jango... você leram isso?
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