domingo, 26 de abril de 2020

Adeus, Vasquinho!


“Se ser populista é tratar bem os pobres, não ter vergonha de entrar na sala de pessoas humildes e tomar um cafezinho, eu, evidentemente, vou continuar sendo populista”

Vasco Alves, 6 de agosto de 1941 – Vila Velha, 25 de abril de 2020

Todo governante que se dedica a governar para todos, com enfoque para os mais necessitados e não para os interesses de uma minoria que sempre foi useira e vezeira do Estado, é taxado pejorativamente de populista.

Sim, Vasco Alves foi esse cidadão, que em sua trajetória de vida, de advogado e de político, teve sempre como referência os interesses dos mais necessitados.

Na vida pública pode demonstrar sua vocação democrática, respeito à coisa pública e compromisso com os interesses do povo nas duas vezes em que foi prefeito de Vila Velha, como deputado federal constituinte e quando exerceu o mandato de prefeito do município de Cariacica.

Devoto e discípulo de são Francisco de Assis, embora suas condições financeiras permitissem viver uma vida com mais regalias e confortos – e até com mais ostentação –, teve sempre hábitos simples, espartanos.

Meus primeiros contatos mais próximos com Vasquinho ocorreram a partir de 1995, quando ele era prefeito de Cariacica e eu trabalhava no governo do estado.

Estive algumas vezes em seu gabinete, na antiga sede da prefeitura cariaciquense para tratar de questões da gestão pública e encontrava sempre as portas escancaradas e o gabinete lotado de lideranças municipais, funcionários da prefeitura por ele convocado para assessoria e encaminhamentos dos assuntos que ali estavam sendo discutidos, onde todos, evidentemente, conheciam dos assuntos de todos, em um aparente caos, mas com decisões sendo tomadas e soluções fluindo normalmente. Transparência muito além dos discursos e das normas.

Por traz da autêntica simplicidade, havia um homem culto, inteligente, um advogado com profundo conhecimento das leis, um político comprometido com as causas populares e sempre atento à necessidade de lutar pela democracia e pelo Estado democrático de direito.

Escrevia regularmente suas análises e impressões nas redes sociais, sobre questões relacionadas à política nacional, em textos sucintos e precisos, alguns dos quais publiquei no portal Vermelho, na seção dos Estados. Reproduzo um deles aqui, que muitos irão interpretar como uma visão parcial, tendente a uma das forças políticas em disputa no Brasil, mas que, na verdade, trata exclusivamente de uma contribuição necessária de um democrata que jamais se omitiu em defender a Constituição brasileira, mesmo que isso significasse remar contra a maré, como a que vivemos agora, quando cada vez mais se estreitam as condições para debates democráticos, substituídos pela insensatez, pela intolerância e pelo ódio:

"O momento político nacional

O momento político nacional está bastante pesado e extremamente conturbado. Aliás, como ensinava o saudoso Sérgio Ceotto, 'a situação está de vaca não conhecer bezerro'.

Entendo que a turma da lava jato, que hoje está politicamente no mesmo campo de atuação que o grupo do Presidente da República e seus filhos, quer neste momento solapar a qualquer custo a única instituição que eles temem:  o Supremo Tribunal Federal (STF).

Para tanto, através da mesma rede social de Fake News que utilizaram nas eleições, querem agora derrubar alguns ministros do STF para poderem com isso nomear novos ministros e, assim, tornar a Corte dócil aos seus interesses.

Isso explica a reação do STF em instaurar  Inquérito, a fim de  apurar o que está por traz  da onda que quer desmoraliza-lo. Explica também a posição de Bolsonaro que,  há poucos dias, defendia a ditadura e a tortura como métodos de atuação política e nesse episódio vem a público para defender  o direito constitucional à LIVRE expressão do pensamento e plena liberdade de comunicação.

O MPF entra nessa história, confundindo inquérito com ação penal, querendo ser o 'rei da cocada preta', como se não bastassem os poderes que lhe outorgamos na carta magna de 88."

Foi sob sua primeira gestão à frente da prefeitura de Vila Velha que teve início uma das primeiras experiências de adoção do orçamento participativo, instrumento pelo qual a sociedade participa da definição dos investimentos prioritários de cada ano, antes da peça orçamentária ser enviada para apreciação e aprovação do poder legislativo.

Mas se havia outras experiências do mesmo tipo sendo conduzidas em outras municipalidades, como em Porto Alegre, Vila Velha foi o primeiro município a normatizar a elaboração do orçamento de forma participativa, quando o prefeito Vasquinho, no ano de 1983, sancionou uma lei para institucionalizar o processo, que mais tarde veio a ser incluído na Lei Orgânica.

O correr da vida não permitiu que tivéssemos contatos frequentes ao longo dos anos, desde aquele longínquo 1995, embora volta e meio nos encontrávamos por estes percursos da política que sempre fizeram parte da vida dele e da minha. Entretanto tive a oportunidade e a felicidade de tornar mais amiúde esses contatos a partir de 2015, quando as circunstâncias da vida nos aproximou em torno do processo eleitoral que culminaria com as eleições municipais de 2016.

Nessa época iniciamos a construção de uma alternativa para governar Vila Velha e contribuir com o fortalecimento do poder legislativo municipal, que batizamos de Frente Vila Velha de Participação Popular (FVVPP), construída inicialmente com as adesões do PPL, partido dirigido no Espírito Santo por Vasco Alves; PCdoB e PT. Infelizmente não logramos êxito em consolidar o projeto. Mesmo assim Vasco, com sua determinação, disposição e coragem, foi para a disputa em uma coligação PPL/PT. Não teria sido sua última experiência no campo de batalha eleitoral, caso o percurso de sua vida não tivesse sido concluído nesse último dia 25 de abril, uma data que considero quase como um réquiem a esse grande brasileiro canela verde, pois nesse mesmo dia e mês, no ano de 1974 se deu a Revolução dos Cravos, que derrotou o regime fascista que governava Portugal desde 1933.


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