quinta-feira, 2 de junho de 2016

ABI e Abraji protestam contra censura imposta ao blog de Auler

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), por meio de nota criticam a censura que atinge um direito constitucional dos brasileiros de terem acesso à livre informação e manifestaram solidariedade ao jornalista Marcelo Auler, que está sendo vítima de censura por parte da Justiça do Paraná, em razão das matérias que fez sobre os delegados envolvidos na Operação Lava Jato.

Reprodução

   "A ABI denuncia o restabelecimento da censura através da decisão da Justiça do Paraná ao determinar a remoção de textos e proibir reportagens sobre a Operação Lava Jato e a Polícia Federal", afirma a nota da ABI. Decisão da Justiça do Paraná mandou retirar do ar textos com críticas à Operação Lava Jato, publicados no blog do jornalista Marcelo Auler.

A sentença determina que o blog não só retire do ar as reportagens listadas no processo como se abstenha de divulgar novas matérias "com conteúdo capaz de ser interpretado como ofensivo ao reclamante [um delegado da Polícia Federal]", ou seja, comete outra violação constitucional ao fazer a censura prévia.

Auler foi processado pelos delegados da PF Erika Marena e Mauricio Moscardi Grillo, integrantes da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba.

"A medida proferida pela Justiça de Curitiba representa também perigoso precedente ao exumar mecanismos de controle da expressão do pensamento usados sem parcimônia durante a ditadura militar", reforça a ABI, que enfatiza que existem outros meios que asseguram o direito dos delegados que se sentiram ofendidos, "sem a necessidade de vivificar procedimentos de caráter autoritário que se acreditava sepultados para sempre com o fim do regime de 1964".

A Abraji também manifestou repúdio "as decisões dos Juizados Especiais de Curitiba, tomadas sem garantir o devido direito de defesa de Auler".

"O jornalista não foi ouvido antes de as liminares serem deferidas. Mais grave é a proibição de publicar futuras reportagens, que configura censura prévia -- medida inconstitucional e incompatível com uma democracia plena. A Abraji espera que o Tribunal de Justiça do Paraná reverta as decisões e garanta o direito à informação previsto na Constituição", afirma a entidade.

  

Do Portal Vermelho, com informações do Blog do Auler

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Justiça caolha

Os escândalos que caminham a passos lentos no Brasil da Lava Jato

por Henrique Beirangê

Sem cobertura midiática, sem empenho do Judiciário

A Operação Lava Jato fez florescer em parte da opinião pública uma velha esperança: a impunidade estaria com os dias contados. Corruptos e corruptores passariam a ser punidos exemplarmente, submetidos às mesmas regras de qualquer cidadão. Nunca antes tantos empreiteiros importantes enfrentaram o rigor das leis.
Mas, a exemplo do “mensalão” petista, ela tornou-se uma exceção em meio a um cenário desolador. Escândalos de corrupção que atingem representantes de outros partidos que desviaram tanto ou mais dinheiro do que os esquemas na Petrobras continuam sem punição e arrastam-se nos tribunais. Coincidência ou não, na última semana, o ministro Gilmar Mendes determinou a suspensão das diligências e o depoimento do senador Aécio Neves, citado por cinco delatores na Lava Jato.

Há um ponto em comum em todos os escândalos sem punição: a desatenção da mídia. Quando jornalistas não cobram, o Ministério Público, a polícia e o Judiciário não exibem o mesmo ímpeto da força-tarefa instalada em Curitiba sob o comando do juiz Sergio Moro, impera a impunidade. CartaCapital lista a seguir alguns dos casos mais rumorosos dos últimos anos. Os resultados da investigação, até o momento, são pífios. Confira:

Escândalo do metrô de São Paulo

O caso veio à tona com o acordo de leniência elaborado por executivos da empresa alemã Siemens, em 2013, no qual denunciam a existência de um cartel bilionário no País, especialmente em contratos do metrô paulista. O esquema funcionou entre 1998 e 2008, durante as gestões dos tucanos Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. Segundo as investigações, foram desviados ao menos 2,5 bilhões de reais dos cofres de São Paulo.

As apurações foram divididas entre o Ministério Público Federal e o de São Paulo. No âmbito federal, o inquérito elaborado pela Polícia Federal foi concluído em dezembro de 2014 e encaminhado ao procurador Rodrigo de Grandis no mesmo mês. Pasme-se: quase um ano e meio depois, ainda não há prazo para a apresentação da denúncia.

De Grandis é um procurador controverso. Ficou conhecido por conta de uma “falha administrativa” nas investigações do Caso Alstom, esquema de corrupção na área energética paulista na década de 90. O procurador diz ter colocado um pedido de compartilhamento de informações encaminhado por investigadores suíços em uma “pasta errada” e o caso acabou literalmente engavetado.

A multinacional francesa era alvo por suspeitas de desvios para pagamento de propinas a políticos ligados ao PSDB e teve a apuração prejudicada por conta da falta de cooperação do procurador brasileiro com o Ministério Público do país europeu. 

Um procedimento foi aberto no Conselho Nacional do Ministério Público para apurar a conduta de De Grandis, mas o ministro Gilmar Mendes, crítico contumaz da “corrupção no PT”, determinou o trancamento do procedimento por considerar que houve “prejuízo na ampla defesa do procurador”.

Em São Paulo, a investigação do trensalão a cargo do MP estadual ganhou ares mais insólitos. Ficou estabelecido que a apuração fosse dividida em dois núcleos. A parte relacionada a personagens políticos sem foro privilegiado foi encaminhada ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado e o inquérito relacionado aos executivos envolvidos no cartel para o Grupo Especial de Combate a Delitos Econômicos.

Passados três anos, não houve nenhuma denúncia formalizada contra personagens sem foro privilegiado ligados a políticos em São Paulo. O inquérito no Gaeco mudou de mãos ao menos quatro vezes. Promotores sem experiência em investigação foram colocados no comando da apuração e nenhuma diligência avançou.

Não à toa, o grupo é alvo de piadas por promotores de outras áreas. Faz mais de dez anos, desde as investigações que tiveram como alvo o contrabandista Law Kin Chong, que o Gaeco paulistano não realiza nenhuma operação de destaque. Integrantes do MP afirmam que a cúpula do órgão tem formado as equipes do Gaeco entre os mais jovens e menos capacitados. A estratégia seria esvaziá-lo e impedir ações contra o governo.

“Fazemos troça. Quando sabemos que o caso é complexo, pedimos para mandar para o Gaeco”, conta aos risos um promotor da capital. Outro integrante do MP paulista diz que o órgão é um aparelho sem utilidade e que ninguém mais tem interesse. “Desde que o governo paulista começou a nomear diversos procuradores para cargos de secretário no governo estadual, o Gaeco acabou.”

No Gedec, dez executivos foram denunciados, mas o Judiciário paulista parece não ter a mesma rigidez quando julga personagens ligados ao PSDB. Foram negados todos os pedidos de prisão preventiva apresentados.

O Tribunal de Justiça paulista, aliás, é um oásis para os agentes públicos. Nunca foi aceita uma ação de improbidade contra nenhum governador, e nenhum deputado estadual jamais foi preso. Com prefeitos, a situação é a mesma. Uma das exceções históricas aconteceu faz dois meses. Juliano Mendonça Jorge, de Miguelópolis, foi detido por fraudes em licitações. A outra excepcionalidade ocorreu na região rural de Casa Branca, em 2011, quando o prefeito Odair Leal da Rocha foi detido por suspeita de tráfico.

Mensalão do PSDB

Dezessete anos após as eleições de 1998, o ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo foi condenado em primeira instância por envolvimento com o esquema do mensalão mineiro. Apesar de sentenciado a 20 anos e 10 meses de prisão por lavagem de dinheiro e peculato por desvios de recursos de estatais mineiras para sua campanha à reeleição a governador, nada mudou em sua rotina.

Diferentemente de outros condenados do mensalão do PT julgados pelo STF sem acesso ao chamado duplo grau de jurisdição – recorrer a uma instância superior –, Azeredo renunciou ao mandato de senador e teve o processo enviado à primeira instância.

O ex-presidente do PSDB continua livre. Não houve decretação de prisão preventiva e há boa possibilidade de Azeredo não cumprir um dia sequer de pena. O ex-presidente do PSDB completa 70 anos em setembro de 2018. Caso os recursos ainda não tenham sido julgados, bem provável, o código penal prevê redução do prazo prescricional pela metade.

O Ministério Público chegou a pedir a prisão imediata de Azeredo e o aumento da pena. O pedido está, porém, na 5ª Câmara Criminal sem prazo para ser julgado. Nenhum outro denunciado no esquema, incluindo o ex-senador Clésio Andrade, hoje no PMDB, cumpre pena.

Máfia da Merenda

A investigação dos desvios de recursos da alimentação escolar no estado de São Paulo não segue os mesmos padrões impostos na Lava Jato e chancelados pelo STF. Desde que a Operação Alba Branca foi às ruas em janeiro deste ano, nenhum personagem com prerrogativa de foro foi preso e todas as prisões dos demais envolvidos não duraram uma semana.

Em depoimentos e delações foram citados cinco integrantes da cúpula do governo Alckmin, entre eles Edson Aparecido, ex-chefe da Casa Civil, e Duarte Nogueira, secretário de Logística e Transportes. Também houve menções ao ex-secretário de Educação Herman Voorwald e o atual secretário de Agricultura, Arnaldo Jardim. O principal nome apontado no esquema é o do tucano Fernando Capez, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo.

O Tribunal de Justiça ainda não autorizou o depoimento dos investigados na operação. Alega ser preciso concluir as quebras de sigilo determinadas pela Corte para que o MP os ouça.

Outra curiosidade do Judiciário paulista e estranhamente encampado pelo ex-procurador-geral Márcio Elias Rosa foi pedir foro privilegiado para os investigados ligados aos secretários. O ex-chefe de gabinete da Casa Civil Luiz Roberto dos Santos, “o Moita”, e o ex-chefe de gabinete da Educação Fernando Padula não são alvo da primeira instância.

Embora o STF já tenha determinado na Lava Jato que os investigados sem foro privilegiado devam ser alvo em primeiro grau, em São Paulo a jurisprudência é outra. Não há previsão de novas diligências na apuração.

Propina do Agripino e mensalão do DEM

O senador Agripino Maia (DEM-RN) é crítico contumaz da corrupção. Dos outros. Após ser acusado por um empresário de ter recebido 1 milhão de reais de propina por permitir um esquema de desvios de recursos públicos na inspeção veicular do estado, seu caso foi encaminhado para o STF.
A ministra Cármen Lúcia autorizou a abertura de inquérito, mas a Procuradoria-Geral da República parece não ter pressa. A autorização foi dada em março do ano passado e desde então não se tem notícia da investigação. O inquérito foi oportunamente declarado como “segredo de Justiça”.

O DEM também passou incólume durante a Operação Caixa de Pandora. A apuração ganhou notoriedade em 2009, com a divulgação de um vídeo em que o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda aparece com maços de dinheiro que seria repassado a deputados aliados.
O escândalo ganhou o nome de mensalão do DEM e custou o mandato de Arruda, cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral após sair do partido. Apesar disso, Arruda não tem sido incomodado. Os advogados do político conseguiram trancar parte da ação no STJ em fevereiro deste ano, aquela que envolve a acusação de lavagem de dinheiro. O processo continua parado sem prazo para ir a plenário.

Talvez haja uma explicação, como afirma o sociólogo Vladimir Safatle: “A razão é simples de entender: as relações entre o alto tucanato e membros do Poder Judiciário e da imprensa é algo que vem do berço. Todos frequentaram as mesmas escolas, cresceram nos mesmos clubes, participaram dos mesmos círculos. Assim, eles se defendem como casta”.


Originalmente publicado em 26 de maio de 2016 na revista Carta Capital

A Imprudência Norte Americana e as perspectivas de uma Terceira Guerra Mundial


Paul Craig Roberts*, paulcraigroberts.org

Enquanto nossas guerras passadas são glorificadas neste final de semana do Memorial Day, reflitam um pouco sobre nossas perspectivas contra os russos e chineses em uma Terceira Guerra Mundial
O Saker relata que a Rússia está se preparando para a Terceira Guerra Mundial, não porque a Rússia pretenda iniciar a agressão, mas porque a Rússia está alarmada com a soberba e a arrogância do Ocidente, pela demonização da Rússia, por ações militares provocatórias pelo Ocidente, por interferência americana na província russa da Chechênia e nas antigas províncias russas da Ucrânia e da Geórgia, e pela ausência de qualquer restrição da Europa Ocidental sobre a capacidade de Washington de fomentar a guerra.
Como Steven Starr, Stephen Cohen, eu mesmo, e um pequeno número de outros analistas, o Saker entende a irresponsabilidade imprudente de persuadir a Rússia de que os Estados Unidos pretendem atacá-la.
É surpreendente ver a confiança que muitos americanos colocam na capacidade de suas forças armadas. Após 15 anos, os EUA têm sido incapazes de derrotar alguns Talibãs levemente armados e, depois de 13 anos, a situação no Iraque continua fora de controle. Isso não é muito animador para a perspectiva de enfrentar a Rússia, muito menos a aliança estratégica entre Rússia e China. Os EUA não conseguiram sequer derrotar a China, um país do Terceiro Mundo na época, na Coreia, 60 anos atrás.
Os americanos precisam prestar atenção para o fato de que o “seu” governo é uma coleção de tolos estúpidos enlouquecidos propensos a provocar a vaporização dos Estados Unidos e de toda a Europa.
Os sistemas de armas russos são muito superiores aos americanos. Armas americanas são produzidas por empresas privadas com o fim de obter enorme lucro. A capacidade das armas não é a principal preocupação. Há excesso de custos intermináveis que elevam o preço de armas dos EUA para níveis astronômicos. O caça F-35, que tem menor capacidade que o F-15 que está previsto para substituir, custa entre US $ 148 milhões e US $ 337 milhões por caça, dependendo se é um modelo da Força Aérea, dos Marine Corps, ou de modelo da Marinha.
Um capacete de um piloto de F-35 custa US $ 400.000, mais que uma Ferrari último tipo.
Washington força ou suborna a infeliz Dinamarca para a compra do inútil e dispendioso F-35.
É inteiramente possível que o mundo esteja sendo levado à destruição por nada mais que a ganância do complexo industrial militar dos Estados Unidos. Encantados por ter o regime imprudente e estúpido de Obama ressuscitado a Guerra Fria, proporcionando, assim, um "inimigo" mais convincente do que a farsa terrorista, a "ameaça russa" foi restaurada ao seu papel do século XX de fornecer uma justificativa para fazer sangrar até secarem o contribuinte americano, os serviços sociais e a economia dos EUA, em nome dos lucros dos fabricantes de armamentos.
Dessa vez, no entanto, a retórica de Washington que acompanha o reavivamento da Guerra Fria é muito mais imprudente e perigosa que as ações de Washington durante a verdadeira Guerra Fria. Os Presidentes anteriores dos Estados Unidos trabalharam para diminuir as tensões. O regime de Obama insuflou as tensões com mentiras e provocações irresponsáveis, o que torna muito mais provável que a nova Guerra Fria vai se tornar quente. Se Killary ganhar a Casa Branca, é improvável que o mundo vá sobreviver a seu primeiro mandato.
Todas as guerras da América, exceto a primeira (a guerra pela independência), foram guerras pelo Império. Mantenha esse fato em mente quando você ouvir os discursos pomposos e presunçosos no Memorial Day sobre os bravos homens e mulheres que serviram o nosso país nos seus tempos de perigo. Os Estados Unidos nunca estiveram em perigo, mas Washington forneceu perigo para muitos outros países em sua busca de hegemonia sobre os outros.
Hoje, pela primeira vez na sua história, os EUA enfrentam o perigo, como resultado de tentativas de Washington para impor hegemonia sobre Rússia e China.
Rússia e China não estão impressionadas com a arrogância, a soberba e a estupidez de Washington. Além disso, estes dois países não são as planícies dos índios nativos americanos, que foram subjugados pela fome pelo abate dos búfalos pelo Exército da União.
Eles não são a Espanha cansada de 1898, de quem Washington roubou Cuba e as Filipinas e chamou esses assaltos de “libertação”.
Eles não são o pequeno Japão, cujos recursos limitados estavam espalhados sobre a vastidão do Pacífico e da Ásia.
Eles não são a Alemanha, já derrotada pelo Exército Vermelho antes de Washington vir para a guerra.
Eles não são Granada, Panamá, Iraque, Líbia, Somália, ou os vários países da América Latina que o General Smedley Butler afirmava que os fuzileiros navais dos EUA tornaram seguros para “a United Fruit Company” e “alguns bancos de investimento deploráveis.”
Uma população americana displicente preocupada com selfies e delírios de proezas militares, enquanto o seu governo enlouquecido escolhe uma luta com a Rússia e a China, não tem futuro.***


*Dr. Paul Craig Roberts foi Secretário Assistente do Tesouro para Política Econômica e editor associado do Wall Street Journal. Ele era colunista do Business Week, Scripps Howard News Service, e Creators Syndicate. Ele teve muitas nomeações Universitárias. Suas colunas de internet têm atraído público em todo o mundo. Os livros mais recentes de Roberts são O Fracasso do Capitalismo Laissez-Faire e a Dissolução Econômica do Oeste (NT: em inglês, The Failure of Laissez Faire Capitalism and Economic Dissolution of the West), Como a América Foi Perdida (NT: em inglês, How America Was Lost), e A Ameaça Neoconservadora para a Ordem Mundial (NT: em inglês, The Neoconservative Threat to World Order).

Originalmente publicado em http://www.paulcraigroberts.org/ em 28 de maio de 2016.
Posteriormente, em 29 fr maio de 2016, publicado no  Blog do Alok, traduzido por Tanya & Eugene

A ditadura do PIB

Por quanto tempo seria possível sustentar metas de crescimento infinitas aqui e no mundo?
por Rafael Sim

Por quanto tempo seria possível sustentar metas de crescimento infinitas aqui e no mundo?
por Rafael Simi
Ex-Secretário do Tesouro no governo de Bill Clinton e ex-conselheiro econômico de Barack Obama, Larry Summers, afirmou recentemente que o mundo vive um período de permanent low growth. Em português claro: baixo crescimento constante. Veículos importantes como BBC e Bloomberg se dedicaram a analisar o fato.
No Brasil, a notícia não chegou. Talvez venha de navio. Tanto que, por aqui, jornais anunciam todo dia medidas de impacto do governo interino de Michel Temer para “destravar o crescimento”. Todas, por coincidência, lesivas aos trabalhadores. Sem falar nos cortes somente em gastos sociais, como o Ministério da Cultura (medida revogada depois) e o Fundo Soberano, uma "poupança" criada há oito anos para se usada em medidas anticíclicas e poderia, eventualmente, receber recursos dos royalties do pré-sal.
É pouco provável que, com a desaceleração da China e os problemas enfrentados pela Europa, o Brasil sozinho consiga ter margens de crescimento exorbitantes. Não é impossível, mas bastante difícil. No entanto, turbinar a área econômica virou uma obsessão de Temer e parte da imprensa.
Como tal retomada parece uma tarefa inglória, caberia aos representantes em Brasília, assim como no New Deal, criar formas de amenizar o impacto da recessão mundial, com projetos de renda mínima, mais investimentos em saúde e educação públicas e outras iniciativas visando o bem-estar da população. Mas não é o que acontece. Pelo contrário. A meta é cortar todo os direitos, chamados de “privilégios” pelo governo interino.
Ainda que o diagnóstico de Summers (também professor de Harvard) esteja errado, cabe uma pergunta: por quanto tempo será possível sustentar metas de crescimento infinitas aqui e no mundo? Aos poucos, elas vêm entrando em conflito com a realidade.
Um exemplo claro se dava dentro do próprio PT: enquanto o prefeito Fernando Haddad estimula o uso do transporte público, Dilma e Lula distribuíram subsídios para a indústria automobilística.
O papel comporta tudo. É sempre possível aumentar a produtividade, o consumo e o lucro em planilhas. Mas será viável no mundo real, com poluição, violência, desmatamento, crise hídrica, lama tóxica da Samarco e esse esgotamento do planeta que insiste em ficar no caminho da economia?
Para termos uma ideia, se toda a população mundial tivesse o padrão de consumo norte-americano, teríamos que dispor de uns três ou quatro planetas semelhantes. O capitalismo para todos não é apenas uma utopia. É uma impossibilidade natural. E incluir também economicamente é imperativo em um mundo que dá passos importantes na igualdade racial e de gêneros. A solução está em repartir o bolo já, e não em ficar insistindo no fermento.
James Carville, marqueteiro de Bill Clinton (aquele do “É a economia, estúpido!”) ensinou a seus pupilos que ganha a disputa política quem define a agenda. E a nossa é definida pelo mercado e os financiadores de campanha. Com isso, o debate fica travado em um só ponto de vista. Mas por que nós aceitamos que o PIB seja a única métrica possível para definir o sucesso do Brasil?
Faz um tempo, alguns países começaram a dar mais valor ao IDH do que a outros indicadores. Para justificar, costumam citar a China: foram mais de dez anos de economia aceleradíssima. Mas e daí? Os chineses são mais felizes do que cidadãos de países com menor produtividade, mas com mais liberdade e qualidade de vida?
Vai demorar para essa discussão desembarcar no Brasil. Mas esperamos que, um dia, desembarque.

Matéria publicada originalmente na revista Carta Capital, em 30/05/2016

terça-feira, 5 de abril de 2016

A esquerda e a atração fatal por acumular inimigos

Nos históricos dias que estamos vivendo, quando democratas travam uma batalha de “vida ou morte” contra fascistas e entreguistas que abraçaram a causa da intentona golpista, fica mais evidente uma tendência pequeno-burguesa no meio da esquerda, e até mesmo entre os comunistas, que é a atração fatal por acumular inimigos, como aqueles acumuladores de objetos imprestáveis que acabam quase soterrando o colecionador maluco.

 E essa atração atinge seu maior grau quanto mais acirrada se torna a luta, quanto mais precisamos de aliados ou de neutralizados.

 Por ouvir dizer ou deduzir que alguém apoia o golpe, pronto! Virou um inimigo a ser combatido e “abatido”. Mais um ou mais uma que - assim, assim - , uma vez “desmascarado”, é colocado do lado de lá, do lado dos golpistas.

Se for um dirigente classista, um parlamentar, um governador ou um prefeito, irá merecer até comemoração e longas e gloriosas narrativas de como o cão-tinhoso foi descoberto e deportado para o campo inimigo. Maquiavel, Sun Tzu e Lenin devem estar se revirando no túmulo.

 Felizes e faceiros por terem conseguido desmascarar mais um inimigo do povo e da democracia, os acumuladores de inimigos seguem em sua busca incessante por mais e mais soldados adversários, como se fossem poucos os que já temos que combater.

 Esse comportamento é altamente prejudicial à nossa luta para alcançar novo salto civilizacional para o Brasil e, o que é pior, beira a uma sabotagem involuntária à luta que travamos em defesa da democracia e contra o golpe.

 Não precisamos e não devemos escolher inimigos. Fiquemos tranquilos quanto a isso, pois o campo do adversário está infestado de fascistas e golpistas.

Se almejamos a vitória, devemos, com paciência e cuidado, analisar a situação concreta e a partir daí construir nossas táticas.

 Se queremos um movimento verdadeiramente de massas nesse campo de batalha, devemos querer do nosso lado todos aqueles e aquelas que defendem a democracia e o Estado Democrático de Direito, mesmo que sejam nossos adversários em outros campos e momentos, mesmo que sejam conservadores, mesmo que não gostem da presidenta, mesmo que abominem a esquerda, os socialistas e o socialismo.

 Mas até em relação àqueles que temos certeza que já aderiram ao golpe, nos cabe usar nossa capacidade dialética, nossa capacidade de convencimento, para tentar fazer com que mudem de opinião ou, pelo menos, fiquem neutros. Remota são as chances, sabemos, mas não podemos deixar de tentar, principalmente quando o alvo detém algum tipo de poder que possa contribuir para resultado adverso, como é o caso daqueles deputados e deputadas que compõem a Comissão do Impeachment e já se declararam favorável ao afastamento da presidenta.

 Mais cuidado ainda devemos tomar quanto aos que ainda não temos certeza absoluta de sua posição. Ouvir dizer, deduzir, supor, não devem ser justificativas suficientes para empurramos ninguém para o lado de lá. Ao contrário, devemos dar prioridade a procurar aqueles e aquelas que supostamente ainda se encontram indefinidos, para tentar traze-los para nosso lado, ou até mesmo neutraliza-los.

 Por fim, devemos cuidar para não trazer divergências setoriais para o ceio dessa grande batalha que travamos contra o golpe. Não nos esqueçamos de que o desfecho da grande batalha que travamos poderá valer por décadas.

 Acumular inimigos pode até satisfazer o esquerdismo que insiste em não abandonar muitos de nós, mas em nada ajudará nossa luta. Pelo contrário, servirá mais aos propósitos da causa dos fascistas e golpistas.

quinta-feira, 31 de março de 2016

De volta a um passado tenebroso

O PMDB de Temer e Eduardo Cunha tem um programa para o Brasil que se chama "Uma Ponte para o Futuro". Mas se você se der ao trabalho de ler esse ícone do neoliberalismo e do entreguismo, verá que o nome mais adequado seria "De Volta a um Passado Tenebroso".

 Destaco três pequenos trechos para ilustrar o que afirmo:

"O salário mínimo não é um indexador de rendas, mas um instrumento próprio do mercado de trabalho. Os benefícios previdenciários dependem das finanças públicas e não devem ter ganhos reais atrelados ao crescimento do PIB, apenas a proteção do seu poder de compra."

 Comento: Em um hipotético governo Temer, o salário mínimo deixaria de ter aumento real e, consequentemente, o mesmo aconteceria com a aposentadoria.

 "...executar uma política de desenvolvimento centrada na iniciativa privada, por meio de transferências de ativos que se fizerem necessárias, concessões amplas em todas as áreas de logística e infraestrutura, parcerias para complementar a oferta de serviços públicos e retorno a regime anterior de concessões na área de petróleo, dando-se a Petrobras o direito de preferência;"

Comento: Uma vez à frente do governo federal, o PMDB de Temer e Eduardo Cunha retomaria a era das privatizações, entregando o patrimônio dos brasileiros a setores privados nacionais e internacionais. Na mira dessa arma letal estão a Caixa Econômica, o Banco do Brasil e a Petrobrás, com o pré-sal e tudo.

"Nos últimos anos é possível dizer que o Governo Federal cometeu excessos, seja criando novos programas, seja ampliando os antigos...."

 Comento: O PMDB de Temer e Eduardo Cunha expõe de maneira explicita e irreparável que se chegar à presidência da república irá acabar ou deformar programas como o Bolsa Família, o Prouni, o Pronatec, Minha Casa Minha Vida e outros.

 O programa do PMDB de Temer e de Eduardo Cunha não deixa dúvidas de que o que está em jogo é se as riquezas do Brasil servirão aos brasileiros e brasileiras, ou se serão entregues para usufruto exclusivo da parcela da elite econômica antinacional associada ao grande capital internacional, sedentos de nosso petróleo, nossos minérios, nossas terras, nossas águas, nossa pátria.

A cantilena do combate a corrupção é apenas uma cortina de fumaça a esconder os verdadeiros motivos da intentona golpista e a servir de motivação para mobilizar milhares de brasileiras e brasileiros incautos, que ainda não sabem, mas podem estar caminhando para um abismo, como os lêmingues, caso o golpe não seja barrado.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Veríssimo: o fenômeno do ‘espírito golpista dos ricos contra os pobres’

De Veríssimo, no globo:

Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres. O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar. Economistas liberais recomeçaram a pregar abertura comercial absoluta e a dizer que os empresários brasileiros são incompetentes e superprotegidos, quando a verdade é que têm uma desvantagem competitiva enorme. O país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores e setores da baixa classe média, contra os rentistas, o setor financeiro e interesses estrangeiros. Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo. É ódio. Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou. Continuou defendendo os pobres contra os ricos. O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas. Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita. Dilma chamou o Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem o poder. A divisão que ocorreu nos dois últimos anos foi violenta. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho. E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.

Nada do que está escrito no parágrafo anterior foi dito por um petista renitente ou por um radical de esquerda. São trechos de uma entrevista dada à “Folha de São Paulo” pelo economista Luiz Carlos Bresser Pereira, que, a não ser que tenha levado uma vida secreta todos estes anos, não é exatamente um carbonário. Para quem não se lembra, Bresser Pereira foi ministro do Sarney e do Fernando Henrique. A entrevista à “Folha” foi dada por ocasião do lançamento do seu novo livro “A construção politica do Brasil” e suas opiniões, mesmo partindo de um tucano, não chegam a surpreender: ele foi sempre um desenvolvimentista nacionalista neokeynesiano. Mas confesso que até eu, que, como o Antônio Prata, sou meio intelectual, meio de esquerda, me senti, lendo o que ele disse sobre a luta de classes mal abafada que se trava no Brasil e o ódio ao PT que impele o golpismo, um pouco como se visse meu avô dançando seminu no meio do salão — um misto de choque (“Olha o velhinho!”) e de terna admiração. Às vezes, as melhores definições de onde nós estamos e do que está nos acontecendo vem de onde menos se espera.

Outro trecho da entrevista: “Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de desenvolvimento crítica do imperialismo, crítica do processo de entrega de boa parte do nosso excedente a estrangeiros. Tudo vai para o consumo. É o paraíso da não nação.”