Por quanto tempo
seria possível sustentar metas de crescimento infinitas aqui e no mundo?
por Rafael Sim
Por quanto tempo seria possível sustentar metas de
crescimento infinitas aqui e no mundo?
por Rafael Simi
Ex-Secretário do Tesouro no governo de Bill Clinton e
ex-conselheiro econômico de Barack Obama, Larry Summers, afirmou recentemente
que o mundo vive um período de permanent low growth. Em português claro: baixo
crescimento constante. Veículos importantes como BBC e Bloomberg se dedicaram a
analisar o fato.
No Brasil, a notícia não chegou. Talvez venha de navio.
Tanto que, por aqui, jornais anunciam todo dia medidas de impacto do governo
interino de Michel Temer para “destravar o crescimento”. Todas, por
coincidência, lesivas aos trabalhadores. Sem falar nos cortes somente em gastos
sociais, como o Ministério da Cultura (medida revogada depois) e o Fundo
Soberano, uma "poupança" criada há oito anos para se usada em medidas
anticíclicas e poderia, eventualmente, receber recursos dos royalties do
pré-sal.
É pouco provável que, com a desaceleração da China e os
problemas enfrentados pela Europa, o Brasil sozinho consiga ter margens de
crescimento exorbitantes. Não é impossível, mas bastante difícil. No entanto,
turbinar a área econômica virou uma obsessão de Temer e parte da imprensa.
Como tal retomada parece uma tarefa inglória, caberia aos
representantes em Brasília, assim como no New Deal, criar formas de amenizar o
impacto da recessão mundial, com projetos de renda mínima, mais investimentos
em saúde e educação públicas e outras iniciativas visando o bem-estar da
população. Mas não é o que acontece. Pelo contrário. A meta é cortar todo os
direitos, chamados de “privilégios” pelo governo interino.
Ainda que o diagnóstico de Summers (também professor de
Harvard) esteja errado, cabe uma pergunta: por quanto tempo será possível
sustentar metas de crescimento infinitas aqui e no mundo? Aos poucos, elas vêm
entrando em conflito com a realidade.
Um exemplo claro se dava dentro do próprio PT: enquanto o
prefeito Fernando Haddad estimula o uso do transporte público, Dilma e Lula
distribuíram subsídios para a indústria automobilística.
O papel comporta tudo. É sempre possível aumentar a
produtividade, o consumo e o lucro em planilhas. Mas será viável no mundo real,
com poluição, violência, desmatamento, crise hídrica, lama tóxica da Samarco e
esse esgotamento do planeta que insiste em ficar no caminho da economia?
Para termos uma ideia, se toda a população mundial tivesse o
padrão de consumo norte-americano, teríamos que dispor de uns três ou quatro
planetas semelhantes. O capitalismo para todos não é apenas uma utopia. É uma
impossibilidade natural. E incluir também economicamente é imperativo em um
mundo que dá passos importantes na igualdade racial e de gêneros. A solução
está em repartir o bolo já, e não em ficar insistindo no fermento.
James Carville, marqueteiro de Bill Clinton (aquele do “É a
economia, estúpido!”) ensinou a seus pupilos que ganha a disputa política quem
define a agenda. E a nossa é definida pelo mercado e os financiadores de
campanha. Com isso, o debate fica travado em um só ponto de vista. Mas por que
nós aceitamos que o PIB seja a única métrica possível para definir o sucesso do
Brasil?
Faz um tempo, alguns países começaram a dar mais valor ao
IDH do que a outros indicadores. Para justificar, costumam citar a China: foram
mais de dez anos de economia aceleradíssima. Mas e daí? Os chineses são mais
felizes do que cidadãos de países com menor produtividade, mas com mais
liberdade e qualidade de vida?
Vai demorar para essa discussão desembarcar no Brasil. Mas
esperamos que, um dia, desembarque.Matéria publicada originalmente na revista Carta Capital, em 30/05/2016
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