AUGUSTO C. BUONICORE
PUBLICADO EM 07.10.2015 NO SITE DA FUNDAÇÃO MAURICIO GRABOIS
Em
1955, Ernesto Guevara encontrou-se com os revolucionários cubanos no México e
em 9 de outubro de 1967 foi assassinado na Bolívia. Portanto, foram pouco mais
de 10 anos de intensa militância revolucionária. Podemos dizer que ele foi,
fundamentalmente, um homem de ação. Seus primeiros escritos buscaram
sistematizar as experiências guerrilheiras em Cuba e generalizá-las para os
outros países do Terceiro Mundo. No entanto, também, escreveu sobre economia,
Estado, ideologia socialista e a construção do “novo homem”. Creio que estes
últimos textos sejam os mais significativos e os que mais podem nos trazer
ensinamentos para os dias atuais.
Fotografado por korda
A GUERRA DE
GUERRILHAS
Os pontos positivos dos textos sobre a guerra de
guerrilha são os que se referem: 1º ao papel necessário da luta revolucionária
no processo de transformação social na América Latina no século XX, dominada
por governos autoritários e ditatoriais; 2º à definição do inimigo principal
dos povos, o imperialismo estadunidense; 3º à importância do internacionalismo,
especialmente a solidariedade com os países dominados e agredidos por esse
mesmo imperialismo.
Ele via com incredulidade a possibilidade de
mudanças efetivas nos países latino-americanos nos marcos da legalidade
burguesa, através das eleições. Qualquer tentativa nesse sentido seria barrada
pela ação violenta das classes dominantes. Escreveu: “Quando se fala em
alcançar o poder pela via eleitoral, nossa pergunta é sempre a mesma: se um
movimento popular ocupa o governo sustentado por ampla votação popular e
resolve em consequência disto iniciar grandes transformações sociais que
constituem o programa pelo qual se elegeu, não entrará imediatamente em choque
com os interesses das classes reacionárias desse país? O Exército não tem sido
um instrumento de opressão a serviço destas classes? Não será então lógico
imaginar que o Exército tomará partido por sua classe e entrará em conflito com
o governo eleito? Em consequência pode ser derrubado por meio de um golpe de
Estado e aí recomeça de novo a velha história.”
Che escreveu estas palavras premonitórias em 1962
no momento em que o movimento comunista internacional estava se inclinando ao
reformismo que emanava da URSS, dirigida por Kruschev. No Brasil, o PCB
advogava a via pacífica para a conquista de um novo regime social e, inclusive,
defendia o caráter democrático das forças armadas. Nos anos seguintes se
confirmaram, de maneira trágica, as teses defendidas por Guevara: em 1964 um
golpe militar derrubou o governo democrático de João Goulart e em 1973 caía
Salvador Allende no Chile. Na segunda metade da década de 1970, a maioria dos
países da América Latina estava dominada por ditaduras militares apoiadas pelos
EUA.
É bom ressaltar que Guevara, em várias passagens de
sua obra, procurou não absolutizar a luta armada, particularmente a guerrilha
rural, e levantou a necessidade da utilização dos mais variados métodos de
luta: pacíficas e nãopacíficas. Os revolucionários, afirmou ele, “não podem
prever de antemão todas as variantes táticas a serem utilizadas no processo de
sua luta por um programa libertador. A qualidade de um revolucionário se mede
por sua capacidade de encontrar táticas adequadas a cada mudança de situação,
em ter sempre em mente as diversas táticas possíveis e explorá-las ao máximo.
Seria um erro imperdoável descartar, por princípio, a participação nos
processos eleitorais. Em determinado momento ela pode significar um avanço no
programa revolucionário.”
Apesar dessa afirmação correta, ele mesmo tendeu,
em vários momentos, a subestimar a luta institucional e por reformas nos marcos
do capitalismo. Referindo-se à política adotada pela maioria dos partidos de
esquerda na América Latina, afirmou: “Nos países onde esses erros tão graves
são cometidos, o povo mobiliza suas legiões, ano após ano, para conquistas que
lhe custam imensos sacrifícios e que não têm o mínimo de valor (grifo nosso).
São apenas colinas dominadas pelo fogo serrado da artilharia inimiga. O nome
delas é: parlamento, legalidade, greve econômica legal, reivindicação por
aumento salarial (...). E o pior de tudo é que para ganhar estas posições tem
que intervir no jogo político do Estado burguês e, para obter autorização de
entrar neste jogo perigoso, é preciso demonstrar que atuará dentro dos estritos
limites da legalidade.”
Guevara, neste trecho específico, não reconhece
qualquer importância às lutas realizadas nos marcos da legalidade – e da
institucionalidade burguesa–, como momentos necessários no processo de
acumulação de forças visando à construção de uma alternativa revolucionária. As
eleições e as greves, quando bem utilizadas, podem ser importantes instrumentos
na formação política das massas trabalhadoras. Todas as conquistas populares,
por menores que sejam, podem ter um valor inestimável quando educam as massas
para a necessidade de sua organização e da luta. A própria história da
revolução cubana é a comprovação viva desta tese leninista.
A fórmula anterior chegou a um impasse quando se
agregou a ela a constatação de que nos países onde existissem governos
democráticos, eleitos pelo voto popular, e que nos quais se mantivesse certa
aparência de legalidade, “o surgimento do foco guerrilheiro seria impossível
por não se terem esgotado todas as possibilidades da luta parlamentar”. Mas, se
nas democracias burguesas as táticas guerrilheiras estariam de antemão
excluídas, só restaria ali a utilização de métodos não-armados, como
participação nas eleições, nos sindicatos, nas greves econômicas ou políticas.
Neste caso, a luta armada teria uma função defensiva.
Outro problema na avaliação de Guevara era quanto
ao papel desempenhado pelo espaço urbano, considerado essencialmente
nãorevolucionário. A industrialização e a concentração urbana seriam fatores
negativos no processo de ruptura com o capitalismo e o imperialismo. Escreveu
ele: “Os países nos quais existem altas concentrações populacionais em grandes
centros, devido a um processo inicial de industrialização, têm mais
dificuldades em preparar a guerrilha. A influência ideológica dos centros
urbanos inibe a luta guerrilheira e incentiva as lutas de massas organizadas
pacificamente”. O ambiente urbano reforçaria o processo de
“institucionalização” das esquerdas, propiciaria a proliferação de ideias
reformistas. Por isto, continuou ele, “mesmo levando em consideração países em
que o predomínio urbano é muito grande, continuamos achando que o foco central
político de luta deve desenvolver-se no campo”. Essa era a mesma opinião dos
defensores da Guerra Popular Prolongada de inspiração chinesa, que defendiam o
cerco da cidade pelo campo.

Che com Chou
En-Lai
O modelo de revolução de Guevara dava muita ênfase
ao “foco guerrilheiro”, embora sua visão sobre ele tivesse passado por
importantes mudanças ao longo de sua obra. Depois de afirmar que “nem sempre
devemos esperar que todas as condições para a revolução já estejam dadas: o
foco insurrecional pode criá-las”, ele sente a necessidade de precisar tal
afirmação e completa: “naturalmente não pensamos que todas as condições para a
revolução são criadas somente pelo impulso que lhe é dado pelo foco
guerrilheiro. Sempre teremos que verificar se existem condições mínimas para o
estabelecimento e a consolidação do primeiro foco. É importante destacar que a
luta guerrilheira é uma luta de massa, é uma luta popular: a guerrilha,
enquanto núcleo armado, é a vanguarda combatente do povo, sua grande força
assentada na massa da população (...). Por isto temos que recorrer à guerra de
guerrilha quando se tem o apoio majoritário da população (...). O guerrilheiro
tem que contar com o apoio da população local. É uma condição sine qua non.” Em
poucos anos, Che e seus companheiros passariam, na prática, a negar a
necessidade da existência de condições objetivas e subjetivas para a eclosão
dos movimentos revolucionários, caindo em posições espontaneístas e
voluntaristas que teriam para ele trágicas consequências.
A experiência da guerrilha boliviana revelou os equívocos de muitas das
concepções defendidas pelos revolucionários cubanos, entre elas a afirmação de
que já existiriam as condições objetivas para a eclosão de uma revolução
socialista em toda a América Latina, cabendo apenas a ação enérgica de um
pequeno grupo de revolucionários para se constituírem as condições subjetivas.
Nos seus derradeiros momentos, Guevara escreveu: “Dia de angústia que em certo
momento pareceu ser o nosso último dia. (...) O exército está mostrando maior
efetividade de ação. E a massa camponesa não nos ajuda em nada e se converte em
delatores”. Eram 17 homens, contingente maior que aquele que havia se alojado
na Sierra Maestra, mas as condições eram agora completamente adversas. O
camponês boliviano não se assemelhava ao camponês cubano, que Che descreveu em
seu artigo “Cuba, exceção histórica?”. A realidade boliviana era completamente
diferente da existente em Cuba no final da década de 1950.

Che executando trabalho voluntário
Se, de um lado, era correta a compreensão de Che de
que a revolução deveria ser continental, que levou a uma valorização do
internacionalismo, particularmente da solidariedade hemisférica; de outro,
acabou levando à construção de uma tática esquemática e anti-histórica. Os
revolucionários cubanos não conseguiram compreender que, apesar da semelhança
de muitos de seus problemas, os países latino-americanos possuíam profundas
diferenças entre si. As revoluções não poderiam simplesmente pular as
fronteiras nacionais. Em novembro de 1967 um documento do Partido Comunista do
Brasil (PCdoB) afirmava: “A revolução será feita em cada país pelo seu próprio
povo. O problema nacional é um dos fatores básicos da luta emancipadora nas
nações oprimidas pelo imperialismo. Todo país tem suas peculiaridades, sua
formação histórica e suas tradições, sua cultura e composição étnica, seus hábitos
e costumes. Todo povo terá que encontrar as formas específicas de abordar a
revolução”. A verdadeira revolução não poderia ser importada ou exportada.
Guevara acertou na compreensão de que os Estados Unidos eram o principal
inimigo dos povos latino-americanos; no entanto, a tática elaborada,
particularmente após 1965, não correspondeu exatamente a esta visão. Ele
concluiu que o caráter da revolução em todo o continente já era socialista e
havia passado, sem as mediações necessárias, a construir uma tática e
estratégia assentadas nessa conclusão imprecisa. Assim, reduziu-se o campo de
alianças possíveis no combate ao imperialismo estadunidense e às ditaduras
implantadas em quase toda a América Latina.
Esta era uma negação da própria experiência revolucionária cubana. Poucos anos
após a revolução cubana, em 1962, Guevara havia escrito: “Não podemos
considerar como excepcional o fato de que a burguesia, ou pelo menos boa parte
dela, se mostre favorável à guerra revolucionária contra a tirania (...). E, se
levarmos em consideração as condições em que se deu a guerra revolucionária e a
complexidade das tendências políticas opostas à tirania, não podemos tampouco
estranhar a atitude neutra ou pelo menos não diretamente ofensiva de certos
elementos latifundiários frente às forças insurrecionais”. Continuou ele: “é
compreensível que a burguesia nacional, estrangulada pelo imperialismo e a
tirania (...), visse com bons olhos esses jovens rebeldes das montanhas
castigando o exército de mercenários, braço armado do imperialismo. Foi assim
que forças nãorevolucionárias ajudaram de fato a facilitar o caminho do advento
do poder revolucionário.”
Neste trecho ele falava de uma burguesia que se mostrava favorável à “guerra
revolucionária contra a tirania” e até da postura neutra de “elementos
latifundiários” diante da revolução em curso. Esse fenômeno – que foi muito bem
aproveitado por Fidel Castro – ajudou os revolucionários cubanos a chegarem ao
poder e, depois de uma série de fases, a implantarem o socialismo.
O documento do PCdoB, polemizando contra aqueles que advogavam a revolução
socialista imediata em toda a América Latina, afirmava: “Para lutar
consequentemente contra o domínio dos Estados Unidos nos países
latino-americanos e em todo o mundo é preciso adotar uma política capaz de
mobilizar o máximo de forças contra esse inimigo (...). Quando se coloca, na
atual etapa da luta, o socialismo como objetivo imediato, na prática
restringe-se o campo das forças revolucionárias e amplia-se o do imperialismo
(...). O exemplo de Cuba mostra que não foi com bandeiras socialistas que ali
se iniciou e se tornou vitoriosa a revolução”. As bandeiras que unificaram o
povo para derrubada de Batista foram, fundamentalmente, democráticas e
nacionais. A revolução radicalizou-se e assumiu seu caráter socialista em 1961,
após a malograda tentativa imperialista de invasão através de Playa Giron (Baía
dos Porcos). Cuba foi um típico caso de revolução em duas etapas.
Na sua última carta endereçada aos seus pais, antes de partir para sua última
trincheira na Bolívia, Guevara escreveu: “Outra vez sob meus calcanhares o
lombo de Rocinante, retomo o caminho com meu escudo no braço (...). Muitos
dirão que sou aventureiro, eu sou de fato, só que de um tipo diferente,
daqueles que entregam a pele para demonstrar suas verdades”.Apesar de possíveis
erros cometidos, Che era acima de tudo um revolucionário socialista. Para ele,
valeria a mesma descrição que Lênin fez a respeito de Rosa de Luxemburgo,
utilizando um velho ditado russo: “Às vezes as águias descem e voam entre as
aves do quintal, mas as aves do quintal jamais se elevarão até as nuvens”. Essa
é a diferença entre o aventureiro pequeno-burguês e um verdadeiro
revolucionário.

Che dançando
conga com crianças chinesas
OS PROBLEMAS DA
TRANSIÇÃO SOCIALISTA
Após a revolução, Guevara assumiu a direção do
setor industrial do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA); em 18 de
novembro de 1959 foi indicado à presidência do Banco Nacional de Cuba e, por
fim, ministro da Indústria de Cuba. Assim, se tornou o principal responsável
pela direção dos assuntos econômicos do poder popular e socialista; e
justamente ele: um médico que gostava de dizer que jamais estudara seriamente
economia. Uma das suas primeiras medidas à frente do Banco de Cuba foi baixar o
seu próprio salário de cinco mil para mil e duzentos pesos. O exemplo pessoal
era uma arma poderosa na luta ideológica que se travava.
Em 1960, viajou, pela primeira vez, aos países socialistas e com isso assinou
inúmeros tratados comerciais. Aproveitou o momento e estudou atentamente essas
diferentes experiências, simpatizando-se por algumas delas. Isso lhe custou
muitas críticas do governo estadunidense. Fidel Castro ainda não havia decidido
seguir abertamente a via do socialismo– afirmava-se defensor do terceiro-mundismo.
O governo revolucionário buscou o caminho da nacionalização das empresas
estratégicas e isto atingiu em cheio os interesses do imperialismo. A maioria
dos bancos, das refinarias, das empresas importadoras e exportadoras era dos
Estados Unidos e foi atingida diretamente pelas medidas nacionalistas. Em 8 de
janeiro de 1961 os EUA romperam relações diplomáticas com Cuba e, em 17 de
abril, apoiaram a invasão de Playa Giron por mercenários cubanos. Depois desses
atos agressivos, Fidel se declarou marxista-leninista e afirmou que a revolução
cubana passaria a seguir a via do socialismo. Reforçou-se a aproximação
econômica e política com a URSS e os países do Leste Europeu.
Desenvolvimento
Industrial e Estímulos Morais
No início da década de 1960 estabeleceu-se uma rica
polêmica sobre quais seriam os caminhos para se reestruturar a economia da nova
Cuba que optara pelo socialismo. De um lado, ficou Guevara e, de outro, os
economistas soviéticos e seus aliados na ilha, os antigos membros do Partido
Socialista Popular (comunista).
No seu plano quadrienal de desenvolvimento Guevara previa aumentar o ritmo da
industrialização, diversificar a economia, reduzir a importância da monocultura
açucareira, estatizar as grandes empresas e limitar as importações. Este foi o
modelo adotado pela União Soviética e China, que havia dado bons resultados.
Che executando trabalho voluntário
Os soviéticos, por sua vez, não viam razão para que
Cuba abandonasse a monocultura de açúcar, afinal esta era a sua principal
atividade econômica. Eles, pelo contrário, se propunham a comprar toda a
produção e fornecer as mercadorias industrializadas de que os cubanos
necessitavam. Segundo os soviéticos, deveria ser estabelecida uma relação de
complementaridade entre a economia cubana e a do Leste Europeu e URSS. A
proposta, em curto prazo, parecia muito compensadora aos cubanos. Pensando em
longo prazo, as coisas poderiam não ser tão boas assim, pois a economia da ilha
seria colocada na dependência do que aconteceria na URSS.
As concepções econômicas de Che poderiam ser encontradas nas palestras que fez
logo no início da revolução. Afirmou ele: “todos estes conceitos de soberania
política, de soberania nacional são fictícios, se ao lado não existir a
independência econômica. (...) Fincamos os pilares da soberania política no dia
1º de janeiro de 1959, mas eles só estarão totalmente consolidados no momento
em que conseguirmos a independência econômica absoluta. (...) Ainda não podemos
proclamar diante dos túmulos de nossos mártires que Cuba é independente
economicamente. Não o pode ser enquanto um simples barco detido nos Estados
Unidos provoque a paralisação de uma fábrica em Cuba, enquanto uma ordem
qualquer de algum monopólio paralise aqui um centro de trabalho. Cuba será
independente quando tiver desenvolvido todos os seus meios, todas as suas
riquezas naturais e quando tiver (...) a certeza de que não poderá haver ação
unilateral de nenhuma potência estrangeira para impedi-la de manter o ritmo de
produção, de manter todas as suas fábricas produzindo o máximo possível dentro
da planificação que estamos pondo em prática.” (Soberania Política e
independência econômica – 20-03-1960).
Após a célebre decisão de Cuba seguir o caminho do socialismo, este país passou
pelas mesmas dificuldades que as demais revoluções vitoriosas: a fuga dos
gerentes, dos técnicos, dos engenheiros e até mesmo dos trabalhadores
especializados. Este quadro foi agravado pelo estado de desordem em que se
encontrava a economia. Era preciso pô-la para funcionar, aumentar a
produtividade do trabalho, vencer o absenteísmo e a indolência: formas de
resistência à exploração capitalista que acabam se enraizando na consciência
social e devem ser superadas após a vitória da revolução socialista.
Visando a vencer estes obstáculos Che lançou um amplo movimento de emulação do
trabalho. Ele criou e liderou os batalhões de voluntários, participando
pessoalmente do corte de cana e da construção de moradias. Seguindo seu
exemplo, milhares de estudantes, funcionários públicos e intelectuais passaram
a realizar atividades produtivas fora do seu tempo normal de trabalho ou de
estudo. Guevara queria utilizar a força do exemplo para incentivar os
trabalhadores a aumentarem a produção.
Aqui, novamente se estabeleceu uma divergência entre ele e os especialistas
soviéticos. Tratava-se de encontrar a melhor forma de incentivar o trabalhador
a produzir mais e melhor. Toda a tradição de construção do socialismo na URSS e
no Leste Europeu se baseava, fundamentalmente, na concessão de estímulos
materiais aos trabalhadores que atingissem ou ultrapassassem as metas impostas
pelos órgãos centrais de planejamento. Guevara não negava a necessidade de se
dar esses estímulos materiais na primeira fase de construção do socialismo, mas
acreditava que o movimento de emulação para produção não devia se assentar
principalmente neles.
Escreveu: “não negamos a necessidade objetiva do estímulo material, mas estamos
relutantes em utilizá-lo como alavanca impulsora fundamental. Consideramos que,
em economia, este tipo de alavanca se torna rapidamente uma categoria autônoma
e chega a impor rapidamente sua própria força nas relações entre os homens. Não
devemos esquecer que (essa necessidade de estímulos materiais) provém do
capitalismo e está destinada a morrer no socialismo”.
Criticando os defensores do modelo de emulação de tipo soviético, afirmou: para
eles, “o estímulo material direto, projetado no futuro e acompanhando a
sociedade nas diversas etapas da construção do comunismo, não se contrapõe ao
‘desenvolvimento’ da consciência, enquanto para nós, sim; é por isso que
lutamos contra o seu predomínio: porque significa o atraso do desenvolvimento
da moral socialista”.
Era preciso ganhar a consciência dos trabalhadores, fortalecendo neles uma
ética socialista. O partido revolucionário e seus militantes teriam um grande
papel neste processo de reeducação da sociedade. “O grande papel do Partido nas
unidades de produção é ser o seu motor interno e utilizar todas as formas de
exemplo de seus militantes para que o trabalho produtivo, a capacitação, a
participação nos assuntos econômicos das unidades sejam parte integrante da
vida dos operários e se transformem num hábito insubstituível.”
Outro aspecto, vinculado ao anterior, que diferenciava o projeto de Guevara das
experiências do “socialismo real”, era quanto à igualização dos salários. No
regime soviético, as significativas diferenças salariais entre trabalho
intelectual e manual, entre trabalho especializado e não especializado, entre
função dirigente e subordinada passaram a ser defendidas como intrínsecas a
todo o período de transição do socialismo ao comunismo. Na tradição soviética o
“igualitarismo” foi apressadamente definido como um desvio pequeno-burguês.
Guevara acreditava que, já no início da transição, o Estado Socialista e o
Partido Comunista deveriam tomar medidas no sentido de eliminar as mazelas
provindas da sociedade capitalista, a saber: a divisão estanque entre trabalho
intelectual e manual; entre funções de mando e subordinadas; o predomínio de
incentivos materiais, através de maiores salários e acesso aos bens de consumo
– o que, no caso soviético, contribuiu para a formação de uma burocracia
afastada das massas trabalhadoras. Ele defendeu que o socialismo,
necessariamente, deveria tender sim para a igualização dos salários e das
condições de vida. Isto, inclusive, deveria implicar sacrifícios conscientes
para algumas camadas de trabalhadores mais privilegiadas, especialmente dos
setores médios e da burocracia.
Afirmou ele: “Esta tarefa de distribuição dos bens do país é a mais difícil e a
mais penosa; estamos empenhados nela agora para repartir de modo equitativo
nossa pobreza, para que ninguém deixe de comer, de se vestir, de receber
educação, atendimento médico e também para que ninguém receba demais (...) não
deve recair sobre os trabalhadores a desgraça de pertencer a uma indústria de
pouca rentabilidade ou a sorte excessiva de estar numa indústria das mais
rentáveis”. Continuou, “os trabalhadores que hoje têm salários acima da norma
terão seus salários congelados e o trabalhador que ingresse na produção passará
a um trabalho similar, não com o salário daquele companheiro que tinha
adquirido seu direito anteriormente, mas com o novo salário.”
O trabalho voluntário realizado pela juventude, intelectuais comunistas e
membros do governo era uma das muitas medidas visando a valorizar o trabalho
manual-produtivo e, em certo sentido, a reduzir o fosso existente entre os dois
tipos de trabalho – intelectual e manual. Lênin chegou a apregoar essa forma de
trabalho logo após a revolução de outubro: os sábados comunistas.
Apesar da presença de certo voluntarismo, uma vontade de pular etapas – na
tentativa de redução do espaço de ação da lei do valor –, ele levantou questões
essenciais que devem ser enfrentadas logo nos primeiros dias da transição. Em
outras palavras, seria preciso realizar, ao lado do desenvolvimento das forças
produtivas, uma verdadeira revolucionarização nas relações de produção –
eliminando gradualmente as diferenças entre trabalho intelectual e manual, das
funções de execução e de mando, reduzindo as desigualdades salariais e no nível
de vida entre as diversas camadas de trabalhadores, e entre elas e os membros
do aparato estatal. O socialismo não pode reforçar essas assimetrias como
ocorreu na experiência soviética.
Talvez sejam essas teses guevaristas, muitas das quais foram e são aplicadas
pelo Estado cubano, que nos permitem entender melhor a incrível capacidade de
resistência do poder popular em Cuba durante todos estes anos, apesar do cerco
imperialista e da débâcle soviética. É preciso aprender com esta experiência,
sem tê-la como “modelo ideal” a ser aplicado extemporaneamente e sem ter em
conta as particularidades nacionais.

Che, Fidel,
Cienfuegos e Osvaldo Dórticos marcham em Havana
A CONSTRUÇÃO DO
HOMEM NOVO
Segundo Guevara, o problema da construção do “homem
novo” figurava num lugar de destaque dentro do projeto socialista e deveria ser
a principal obra da revolução. O sistema capitalista, no seu processo de
produção e de reprodução social, não cria apenas mercadorias e mais-valia, cria
também homens incompletos, fragmentados. Sobre este processo escreveu Che: “O
exemplar humano, alienado, tem um invisível cordão umbilical que o liga à
sociedade (capitalista) em seu conjunto: a lei do valor. Ela atua em todos os
aspectos de sua vida, vai modelando seu caminho e seu destino (...). As leis do
capitalismo, invisíveis para o comum dos mortais, e cegas, atuam sobre o
indivíduo sem que este perceba.”
As particularidades do processo de transição ao socialismo, que pressupõe a
permanência do mercado e de suas leis – inclusive a lei do valor – levam a
sociedade nova a ainda conviver, por algum tempo, com elementos das ideologias
predominantes no capitalismo – a burguesa e pequeno-burguesa. Estas continuam a
se reproduzir, ameaçando o futuro da transição, se não forem contidas pela ação
firme e consciente do novo poder popular e socialista.
“As taras do passado”, afirmou Che, “se transferem ao presente na consciência
individual, e é preciso fazer um trabalho contínuo para erradicá-las (...). A
nova sociedade em formação tem que competir muito duramente com o passado (...)
pelo próprio caráter deste período de transição com a persistência das relações
mercantis. A mercadoria é a célula econômica da sociedade capitalista; enquanto
existir, seus efeitos se farão sentir na organização da produção e, por
conseguinte, na consciência”.
Por esse motivo, Che se colocou contra os métodos de emulação que priorizassem
as concessões de estímulos materiais – aumento de cotas de consumo, prêmios de
produtividade etc. Segundo ele, a necessidade do aumento rápido da produção
levou à “tentação de seguir caminhos trilhados do interesse material”,
correndo-se o risco de perseguir o sonho irrealizável de buscar construir o
socialismo com a ajuda “das armas defeituosas que nos foram legadas pelo
capitalismo”; estas fariam um lento e seguro trabalho de sabotagem sobre o
desenvolvimento de uma consciência socialista dos trabalhadores. “Daí”, afirmou
ele, “ser importante escolher corretamente o instrumento de mobilização das
massas. Esse instrumento deve ser de índole moral (...). A sociedade em seu
conjunto deve se converter em uma gigantesca escola”.
A persistência da ideologia burguesa, engendrada pelas leis de mercado, levam o
trabalhador a considerar natural a vinculação direta entre sua produtividade
média e seu acesso ao consumo de mais e melhores mercadorias. “Justamente por
isso”, afirmou, “a ação do Partido de Vanguarda consiste em levantar ao máximo
a bandeira oposta, a do interesse moral, do estímulo moral, a bandeira dos
homens que lutam, se sacrificam, e não esperam nada mais do que o reconhecimento
por parte de seu companheiros.”. Continuou: “O estímulo moral, a criação de uma
nova consciência socialista é o ponto em que devemos nos apoiar, aonde devemos
chegar e ao qual devemos dar ênfase (...). O estímulo material é o resquício do
passado com o qual se deve contar, mas cuja importância deve diminuir na
consciência das pessoas na medida em que o processo avança (...). O estímulo
material não fará parte da nova sociedade que está se criando, deverá se
extinguir no caminho”.
Segundo Guevara, o homem no socialismo, “apesar da sua aparente homogeneização,
é mais completo (...) e sua possibilidade de se expressar e se fazer sentir no
aparato social é infinitamente maior.” O socialismo seria o momento de
recuperação da integralidade humana, da construção do homem multidimensional,
desalienado. O socialismo plenamente realizado representaria a apropriação,
pelos homens, das condições de sua produção e reprodução de sua vida.
Este processo teria início com a implantação do planejamento consciente– e
democrático– da produção econômica. Assim, o homem tomaria o seu destino nas
próprias mãos. Afirmou ele: “é preciso acentuar sua participação consciente,
individual e coletiva, em todos os mecanismos de direção e de produção (...).
Assim obterá a consciência total de seu ser social, o que equivale à sua
realização plena como criatura humana”. E conclui: “o homem realmente alcança
sua plena condição humana quando produz sem a compulsão da necessidade física
de vender-se como mercadoria”.
Seguindo uma indicação do jovem Marx, ele constatou que o trabalhador “morre
diariamente às oito horas em que atua como mercadoria para ressuscitar em sua
criação espiritual”. Contudo, no capitalismo, mesmo o lazer e a produção
cultural não passam de tentativas de fuga. “A lei do valor não é mero reflexo
das relações de produção”, ela perpassa todas as relações humanas, inclusive
fora do trabalho. Na sociedade atual, “a angústia sem sentido ou o passatempo
vulgar constituem válvula cômodas para a inquietação humana”. Sendo, portanto,
úteis para a reprodução do sistema.
Trabalho desalienado é uma categoria importante para Guevara, seria
exclusivamente através dele que poderia ser constituído o homem novo. Por isso,
a renovação e valorização do trabalho, especialmente o manual-produtivo,
deveriam ser uma tarefa central do poder socialista. Este processo passaria
pela redução das desigualdades entre trabalho intelectual e manual, entre
funções de comando e funções subordinadas. O trabalho manual não poderia ser a
sina dos definidos como menos aptos, como ocorre nas sociedades capitalistas.
Nelas, a pecha de trabalho desqualificado é sinônimo de baixos salários e
precarização das condições de vida, quando comparadas com formas “superiores”
de trabalho – o trabalho intelectual e de dirigente do processo produtivo e
estatal. O socialismo deveria fundar também uma nova ética do trabalho.
Referindo-se aos jovens cubanos ele afirmou: “Sua educação é cada vez mais
completa, não nos esquecemos de sua integração no trabalho desde os primeiros
momentos. Nossos bolsistas fazem trabalho físico em suas férias ou
simultaneamente ao estudo. O trabalho é um prêmio em certos casos, um
instrumento de educação, em outros, nunca um castigo.” O trabalho manual
deveria se livrar do estigma de martírio e castigo que, de certa forma,
carregou inclusive nas experiências socialistas – que tinha no deslocamento
para trabalhos manuais uma forma de castigo para os opositores ao regime.
A sociedade socialista em construção deveria se livrar também da velha concepção
capitalista de que a capacidade de consumo de mercadorias seria a medida de
todos os homens. Se o socialismo quiser competir neste terreno estará de
antemão derrotado. Não seria possível oferecer um nível de consumo superior ao
existente nas sociedades capitalistas avançadas para toda a população, nem em
curto e nem em longo prazo. “Não se trata de quantos quilos de carne se come ou
de quantas vezes por ano alguém pode ir passear na praia, nem de quantas
maravilhas que vêm do exterior possam ser compradas como os salários atuais.
Trata-se, precisamente, de que o indivíduo se sinta mais pleno, com mais
riqueza interior e com muito mais responsabilidade”, afirmava ele.
Outra característica do humanismo socialista, defendido por Che, é o
internacionalismo. Ser comunista se confundia com ser internacionalista e ter
amor pela humanidade. “Permita-me dizer-lhes”, afirmou ele, “com o risco de
parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro é guiado por grandes
sentimentos de amor. É impossível se pensar em um revolucionário autêntico sem
esta qualidade (...). Nosso revolucionário de vanguarda tem que idealizar esse
amor aos povos, às causas mais sagradas e fazê-lo único, indivisível”.
O militante da causa socialista não deve se contentar apenas em realizar as
tarefas locais e se bastar com elas. Mesmo as pequenas vitórias cotidianas
podem adormecer o espírito transformador e levá-lo ao acomodamento, e isto é a
morte da revolução e da possibilidade da realização plena do socialismo. “Se o
afã de revolucionário se debilita quando as tarefas mais prementes se realizam
em nível local e se esquece do internacionalismo proletário, a revolução que
dirige deixa de ser uma força impulsionadora e desaparece numa cômoda modorra,
aproveitada por nossos inimigos irreconciliáveis”. Conclui Che: “Não pode
existir socialismo se nas consciências não se opera uma mudança que provoque
uma nova atitude fraternal diante da humanidade”.
No texto O que deve ser um jovem comunista, Guevara reafirmou suas teses
humanistas e internacionalistas: “o que se coloca para todo jovem comunista é
ser essencialmente humano, ser tão humano que se aproxime do melhor dos
humanos. Purificar o melhor do homem através do trabalho, do estudo, da prática
da solidariedade contínua com o povo e com todos os povos do mundo; desenvolver
o máximo de sensibilidade, até o ponto de sentir-se angustiado quando em algum
canto do mundo um homem é assassinado e até o ponto de sentir-se entusiasmado
quando em algum canto do mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade”.
Contraditoriamente, a vitória da revolução pode levar à burocratização dos
quadros dirigentes do Estado e do Partido, por isso é necessário um constante
processo de vigilância e educação ideológico. A burocratização é um instrumento
a serviço da contrarrevolução. “Contrarrevolucionário é todo aquele que
contraria a moral revolucionária (...) é (também) aquele senhor que, valendo-se
de sua influência, consegue uma casa, consegue depois dois carros, viola o
racionamento e obtém depois tudo o que o povo não tem (...). Aquele que utiliza
suas influências boas ou ruins em proveito pessoal ou dos seus amigos, este é
contrarrevolucionário”. Os dirigentes do Partido e do Estado devem ter uma
conduta exemplar, este é um fator determinante para se conquistar as massas
para a construção do socialismo.
As dificuldades impostas ao processo de construção do “homem novo” são enormes.
A sua realização exige vontade férrea e grandes sacrifícios dos dirigentes
revolucionários. Não se realizará de uma só vez, conhecerá avanços e recuos. Os
métodos serão importantes – por isso é preciso encontrar métodos novos,
adequados à nova sociedade socialista que se quer construir. Mas, ela é
possível de ser realizada e nela se assentará a possibilidade de realização do
sonho socialista – de um homem liberto da exploração, da opressão de toda
espécie –, o homem emancipado.
Afirmou Guevara: “Se alguém nos disser que somos quase uns românticos, que
somos idealistas inveterados, que estamos pensando em coisas impossíveis e que
não se pode conseguir da massa do povo que ela seja quase um arquétipo humano,
temos que responder uma e mil vezes que sim, que isso é possível, que estamos
no caminho certo, que todo o povo pode avançar, acabar com a mesquinhez humana
como está acontecendo em Cuba nestes quatro anos de revolução.”
* Este ensaio
foi publicado originalmente no sítio Vermelho em outubro de 2002.
** Augusto C.
Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor
dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e
desencontros e Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos
publicados pela Editora Anita Garibaldi.
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